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Durante o período das férias li na Revista XXI da Embrapa uma entrevista com Luisa Massarani. Em 2014 ela assumiu a direção da Red-POP ( Red de Popularización de La Ciencia y la Tecnología en America Latina y Caribe).

A entrevista já estava bem legal quando ela foi questionada sobre a tendência dos museus se tornarem mais interativos. Se com a interatividade não existe o risco das crianças perceberem o museu como uma diversão, um momento de lazer. Eu até achei a pergunta pertinente, afinal eu mesmo tenho minhas ressalvas ao edutainment. Que é muito usado em museus e mostras científicas para crianças.

Porém a resposta foi ainda melhor, essencialmente foi algo como: “E daí? Isso é grave?”. Na resposta ela demonstrou perceber que o aprendizado não ocorre de forma linear e mostrou seu conhecimento da literatura técnica sobre aprendizagem que ressalta a importância da brincadeira dentro do processo de aprendizagem. Eu também gostei porque a resposta dela, para mim, resgatou um dos pontos importantes do pensamento científico. Ciência não é título, livro, cargo ou salamaleque retórico, mas sim um método e uma atitude questionadora em relação ao que está à nossa volta. Repare que questionar é diferente de negar. Em suma, divulgação da ciência seria algo mais simples que juntar quantidades quilométricas de informação, também seria algo mais efetivo. Me baseando em Luísa Massarani a divulgação de ciência seria algo como um minhocário. Nosso trabalho não é ensinar, não no sentido tradicional de dizer paraos estudantes o que é certo, mas de colocar minhocas na cabeça deles em número suficiente para que pensem por si mesmos. É um trabalho lento mas essencial.

E nesse aspecto ainda há muito a ser feito. Ela falou sobre a questão de como a grande mídia divulga a ciência e observou como há mais destaque para pesquisas no exterior do que brasileiras. Creio que isso acontece também porque vários jornais preferem reproduzir o conteúdo de agências estrangeiras a garimpar material nacional.

Outro que eu acredito que exista é que os jornais acabam por reproduzir um entendimento superficial que o senso comum tem sobra a ciência. Evitando mostrar as limitaçòes que são inerentes a qualquer pesquisa. Como as variáveis, as margens de erro e outras possibilidades apresentadas. Como ela comentou: a ciência não é estática não é um pacote fechado, alguns entendem a controvérsia ou a existência de diferentes correntes dentro do comunidade científica como uma fraqueza. Quando a realidade é o contrário. A controvérsia é um elemento essencial no processo de construção do conhecimento científico. Como já vi em algumas apresentaçòes de trabalho na Embrapa a pesquisa é feita em grande parte na base da martelada, e por seus pares.

Se você comparar as conclusões finais de um trabalho científico com o título de uma matéria de jornal as diferenças são surpreendentes. Geralmente uma boa pesquisa termina com algo como: “Com base nos dados x observados e considerando as condições y estabelecidas é possivel supor que, nesse caso, A possa ser relacionado a B. Porém mais estudos são necessários para confirmar essa correlação ou se ela ocorre em outras situações. Já matérias de jornal começam com algo como: Cientistas comprovam em definitivo: A provoca B.

O que só mostra como é necessária a divulgação da ciência, para todos os públicos. Espero que sejamos cada vez mais eficientes nesse longo trabalho de construir minhocários e colocar as pessoas para pensar.

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