Livros famosos convertidos para filmes sofrem o sério risco de serem decepcionantes. Talvez minha boa impressão sobre o filme Ender’s Game – O jogo do exterminador venha do fato que esse foi um livro famoso que eu não li. Assim, dessa vez eu não tive as toneladas de expectativas de muitos dos leitores

Não vou entrar muito na trama para não estragar a surpresa para quem não leu e vou me ater aos tópicos sobre educação, tecnologia e cia que ocorrem dentro dessa trama e tem alguns desdobramentos interessantes.

A primeira coisa que me saltou aos olhos foi como o autor do livro realmente foi visionário ao antever, em fins de anos 70, a complexa relação entre o real e virtual que ocorre nos videogames e os impessoais drones, os veículos aéreos não tripulados de guerra como os que os Americanos empregam hoje em dia. A primeira guerra do golfo ocorrida em 1991 e conhecida como Guerra de Videogame já pode ser imaginada no livro.

Outro aspecto interessante foi o extenso e consolidado uso de jogos como ferramenta educacional no mundo de Ender. De fato, as fronteiras entre o virtual, o jogo, e o real, a guerra, assumem uma nova dimensões ao longo do filme.

Ao mesmo tempo os pragmáticos, e maquiavélicos, sistemas de avaliação e seleção empregados pela escola militar de Ender são incomodamente verossímeis. Não só para uma escolarmilitar como para os que buscam ter ou manter uma carreira profissional hoje em dia. Até mesmo a situação familiar de Ender é considerada: um sujeito que tenta se equilibrar entre a violência do irmão mais velho e a ternura da irmã mais nova. E tudo isso assistido por pais distantes e ausentes. Tanto que muito do papel paterno é feito pelos oficiais superiores de Ender: um coronel, uma major e um sargento que têm suas próprias agendas em relação à personagem.

A tenebrosa história dessa criança-soldado pode parecer mais refinada e tecnológica que a vida de uma criança pobre usada como joguete num conflito em algum lugar do terceiro mundo. Mas, na verdade, a situação de Ender não é muito melhor. Acho perturbador imaginar quantas crianças podem estar sendo educadas de forma parecida hoje em dia.

Enfim, o filme leva a algumas reflexões bem legais. Eu consigo imaginar sua aplicação didática em áreas como administração de RH, pedagogia e até mesmo filosofia como um excelente ponto de início para discussão e reflexão.

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