Fui convidado pelo pessoal do ICMBio para participar das atividades da semana de aniversário do Parque da Àgua Mineral, também conhecido como Parque Nacional de Brasília. Para mim mais uma oportunidade de aplicar o jogo e desenvolver técnicas para seu uso, especialmente em grupos grandes é sempre bem-vinda.

E assim, fui para o Centro de Educação Ambiental do parque levando 3 unidades de jogo. O suficiente para atender 18 alunos por vez. De forma semelhante ao que ocorreu na Volta Anchieta a atividade com o jogo seria mais dentre as várias atividades que ocorreriam no dia.

No total jogaram aproximadamente 54 alunos, com resultados variáveis. Novamente a experiência foi interessante para mostrar alguns do os pontos críticos dos jogos, especialmente os educativos:

A explicação das regras. Se for bem feita e eficaz melhora a reação dos participantes ao jogo, caso contrário toda a experiência pode desabar impedindo a aprendizagem e prejudicando ou aé mesmo impedindo o jogo em si. E olha que eu já vi isso acontecer. É surpreendente observar como um jogo novo pode ser algo intimidador para um participante. A quantidade de informações iniciais acaba sendo grande e o jogo de tabuleiro não oferece as facilidades que um tutorial de computador permite, o ambiente dentro do computador é muito mais controlável, como demonstrado por qualquer fase tutorial de um bom videogame. Após a experiência com os escoteiros me preparei melhor, fiz uma versão 10 vezes maior do caderno de regras para poder explicar para grupos grandes, com explicações e ilustrações. Ainda assim, essa fase é um desafio.

Os facilitadores, A qualidade da facilitação faz muita diferença, especialmente para ressaltar o conteúdo de educação o ambiental do jogo. Nesse aspecto a iniciativa de facilitadores na experiência com os chefes escoteiros foi um dos exemplos positivos e que também foi observada em alguns professores que conduziam as turmas no parque. Nesse aspecto eles conseguem ser fantásticos, além de ajudarem os alunos a lidarem com as regras eles também mantém o foco do grupo.

A idade e nível cognitvo. Num dos grupos eu tive uma surpresa: Começei a explicar as regras e percebi que parte deles simplesmente não estava entendendo. Expliquei de novo e mesmo com os professores e facilitadores em cima deles duas mesas simplesmente pararam depois de uns 15 minutos. Confesso que estava tão supreso quanto frustrado. Já havia explicado para grupos maiores, a idade, em torno de 10 e 11 anos, também não parecia ser problema. Só entendi ao final da sessão, quando uma das professoras conversou comigo, imagino que ela viu a minha cara. Ela me explicou que aquela era uma turma inclusiva. Alguns daqueles alunos eram especiais. Ela me mostrou um menino de 11 anos e me explicou que a idade mental dele deveria ser de 6 anos. E que nas mesas de jogo só havia uma que não teve alunos especiais. Justamente a que conseguiu jogar. Assim, descobri uma nova variável a considerar dentro do perfil de jogadores. O jogo requer uma boa capacidade cognitiva e nesse aspecto é melhor calibrar o jogo de acordo com as capacidades do aluno do que tentar nivelar um grupo, seja por cima ou por baixo.

Outro aspecto digamos… didático dessa conversa veio quando perguntei qual a opinião da professora sobre a idéia de turmas inclusivas. Eu confesso que era cético quanto a idéia. Sempre me pareceu idéia de burocratas politicamente corretos inventando regras do conforto de seus escritórios e esperava ouvir o mesmo de alguém que realmente tem de fazer a coisa funcionar. Mas, para minha surpresa, a professora era francamente favorável. Segundo ela os ganhos de aprendizagem dos alunos especiais era imenso nas turmas inclusivas devido à socialização e ao mesmo tempo os alunos comuns tornavam-se mais tolerantes à diferença devido à convivência. De certa forma tomei um tapa com luva de pelica, merecido diga-se de passagem. É a diferença entre uma escola para formar cidadão e uma fábrica de passadores em vestibular. Professoras como essa mereciam uma estátua de bronze num parque ou, melhor ainda, salário e condições de trabalho decentes e  à altura da tarefa que desempenham.

Enfim, mais algumas manhãs cansativas, estressantes e cheias da experiência que eu preciso.

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