E lá estava eu entrando no hospital para mais uma das minhas noites de jogo com os pacientes. Cortesia da Abrace. Geralmente  converso com as enfermeiras para saber se há algum quarto com restrição de acesso, vou até a sala comunitária e aproveito para ver se há pacientes na faixa de idade adequada para o meu jogo. Tudo isso antes da minha “ronda” até o final do corredor, quando vou entrar de quarto em quarto para jogar com eles.

Bem, enquanto limpava as peças já tive o meu primeiro presságio de que essa noite seria concorrida. Três garotos estavam se revezando no videogame da sala jogando Grand Theft Auto. Admito que, na comparação, minhas pobres pecinhas empalidecem contra um videogame consagrado apresentado numa tela de 40 polegadas. Mas tudo bem, há outros quartos e outros pacientes.

E a ronda começa: bebês num quarto, dorminhocos no outros e bingo! Encontro uma das minhas assíduas, um que já jogou diversas vezes, perdeu algumas, ganhou outras e raramente nega uma partida. Jogar com ela está se tornando um clássico pessoal e já posso subir um pouco o nível de dificuldade com ela. Perfeito para garantir ao menos um sucesso na noite. Ela está um tanto quieta, normalmente é mais competitiva, mas tudo bem. Vamos testar uns movimentos novos, provocar um tiquinho o gosto dela por vencer e tudo se resolve.

Porém, de repente ela se vira para a mãe e diz: Eu vou vomitar!

Eu fico surpreso. E porque cargas d´agua estou surpreso? Não estou num hotel, mas num hospital, ela é uma paciente, óbvio que coisas assim acontecem. E enquanto eu pensava no que fazer e era tomado por essa renca de pensamentos inúteis a mãe dela, muito mais útil, corria para pegar o saco de vômito que estava na cama. Infelizmente não deu tempo e a pobre senhorita “pintou” o lençol com restos do lanche e efeitos colaterais. Assim, estávamos todos nós constrangidos: a mãe porque a filha vomitou; a filha porque vomitou e eu me sentindo um completo e inútil voluntário. Ao menos chamei a enfermeira e ajudei a trocar o lençol. Tentando manter minha fleuma britânica e tornar o ambiente menos constrangedor perguntei para minha doce adversária se ela topava continuar. Oferta que ela obviamente rejeitou, nota mental: botar os bofes para fora costuma reduzir o ânimo das pessoas.

Ok, próximo quarto. Me apresento e reconheço outra jogadora de outra partida, muito promissora por sinal. Porém pela cara dela percebo que cheguei num momento não tão promissor assim. Tudo bem, próximo quarto, de novo.

E aqui encontro outro dos assíduos. Na verdade esse é o adversário mais casca grossa que eu tenho no hospital, o único que realmente me obriga a usar de tudo para ganhar e ainda assim perco de lavada dele de vez em quando. Inteligente, competitivo, adora jogar e se diverte muito fazendo isso, desafio garantido. Ops, vendo um filme? Ok, sem problemas, outras noites virão. Seu colega de quarto era um dos que estava no videogame, os peões se encolheram quando eu propus uma partida. Claro que ele não topou.

E já estava eu achando que ia voltar para casa mais cedo, derrotado por W.O quanto entro em mais um quarto.Mas uma vez faço meu pequeno número de apresentação com a certeza de que vou ser derrubado pela novela das 19h. Uma paciente olha para a outra, uma sorri e a outra parece um tanto indecisa mas concorda, Ambas topam jogar.

Jogar em três tem sido algo incomum nas últimas noites. Essa não é uma oportunidade a se ignorar e claro que eu aproveitei. Expliquei as regras com a calma e detalhamento, tanto detalhamento que elas acharam o jogo muito mais simples na hora que começaram a jogar.  E aquela foi uma das partidas que me relembrou porque eu gosto do que estou fazendo. Elas observavam a aprendiam, eu jogava, comentar, sugeria explicava. Em algum momentos eu mostrava uma jogada que fiz ou sugeria como elas poderiam ganhar mais pontos. E a todo momento aproveita para mostrar a relação entre as regras do jogo e o que realmente acontece no Cerrado. Quando a cara de chuva aparece eu descrevo a enchente e mostro quando é pago o preço do desmatamento das matas de galeria.  Nos campos úmidos e nascentes mostro o rio que se formou, vale muitos pontos, e falo sobre a importância das nascentes.

O outro ponto interessante foi observar o comportamento delas jogando, surgem diversas oportunidades de aprendizagem nesses momentos e é possível conhecer elas um pouco melhor. Uma, a jogadora das peças vermelhas,  é perfeccionista e competitiva, se indigna consigo mesma quando observa que perdeu uma oportunidade, sabe que está atrás no placar mas não desiste. A outra, com as peças brancas é quieta, um tanto indecisa, mas adotou a tática de fazer pontos ” de grão em grão” sem chamar a atenção. Eu aponto os estilos, sugiro opções: Onde podem ganhar mais pontos ou perder, sugiro riscos e possibilidades. Nunca explico a jogada toda, apenas levanto hipóteses para que elas tentem responder jogando.

Uma das minhas frustrações é que como educador eu sou um espelho, no máximo uma lente de aumento. Eu não consigo incutir aprendizagem, desejo ou prazer de aprender, mesmo com o jogo. Eu apenas aumento ou valorizo as capacidades que o aluno já tem. Por outro lado, aquele é justamente o caso que eu adoro, trabalhar os potenciais, colocar os jogadores numa situação em que eles estão no comando e o aprendizado vem com a experiência deles. Não sou eu que digo o que eles devem fazer, eles chegam as suas próprias conclusões, é aquela faísca cognitiva que eu tanto procuro.

A Rainha Vermelha tenta e reclama, nunca surgem as cartas que ela quer. Eu digo que a vida é assim, não adianta pensar só no que você gostaria é preciso se virar com o que tem. A mãe de Vermelha se interessa. concorda que a filha é perfeccionista e competitiva me pergunta o que ela poderia fazer para mudar. Um momento delicado, jogo com cuidado. Digo que ambas as características não são necessariamente defeitos. Como no caso das cartas ela deve aprender a fazer o melhor com o que tem na mão. Se bem utilizadas essas características podem ser virtudes. Brinco de Paracelso comentando que a diferença entre remédio e veneno é a dose.

A Princesa Branca é indecisa não gosta de se arriscar, é preciso incentivá-la. Como quase todo mundo ela segue o princípio da satisfaciencia.  Ela não procura a melhor alternativa, o máximo absoluto, mas sim, aquela alternativa mais satisfatória, que se mostra suficiente frente às possibilidades da situação. Mas é possível incentivá-la a procurar um pouco mais por alternativas. Digo que todas as jogadas são escolhas, tem seus ganhos e seus custos e a diferença entre eles é o que vai definir se uma jogada foi boa ou não. Novamente aponto possibilidades, eventualmente digo que ela pode ganhar pontos em sua jogada, dependendo do terreno em que se posicionar. Vermelha é esperta e entende o que estou fazendo, ela me olha com cumplicidade e não fala nada. Em alguns momentos Branca acerta e em outros não, em alguns casos eu a elogia, em outros mostro o que ela poderia ter feito. Depois dela decidir a jogada dela, claro. Um tequinho de decisões e consequências, o erro é uma fonte de aprendizagem e tento manter o foco em não discutir jogadas certas ou erradas.

E assim jogamos duas partidas, elas perguntaram onde poderiam comprar o jogo e quando eu viria de novo. Elas estão satisfeitas e eu curti o meu momento 80 nessa noite.

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