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Foto: Kilson Moura

Hoje joguei com o Grupo Escoteiro José de Anchieta. Eles tinham um evento, a Volta Anchieta no Parque da Cidade. O evento envolvia a passagem dos escoteiros em várias estações e numa delas eu estaria com os jogos como uma ação de educação ambiental.

Para variar o evento foi tão legal quanto cansativo. E garanto que foi extremamente cansativo. Os grupos grandes demandam mais facilitação, apertam o cronograma e limitam o potencial para reflexão, mas ainda assim tivemos resultados satisfatórios. A maioria dos grupos se envolveu na atividade e até pediram para jogar de novo. A experiência só reforçou a idéia de regras diferentes de acordo com o público, objetivo desejado e/ou situação. Nesse caso foi um grupo de mais de 100 escoteiros jogando.  E mesmo as adversidades são interessantes por definirem opções melhores para o emprego de jogos.

Dentre as primeiras conclusões

  1. Jogos demandam tempo. Não é apenas tempo para aprender as regras, mas também para montar jogadas, entender as possibilidades, os outros jogadores e montar uma estratégia. Mesmo num jogo simples essas atividades demandam concentração e uma certa maturação do pensamento em cima do jogo e isso não vem rápido, na verdade cada um tem seu ritmo para isso e essa diferença de ritmo demanda ainda mais tempo.  Análises de impacto futuro certamente vão ter de observar isso. O que bate muito com a idéia de aprendizagem pela experiência.
  2. A explicação das regras é um momento importante. Como diria Aldricht, o “lado raso da piscina” a fase inicial do jogo que é a apresentação das regras é uma fase simples e instrucional, mas nem assim ela é fácil. Muitos jogadores não conseguem absorver tanta informação de uma vez ou precisam de outros recursos, como um contexto para a explicação fazer sentido ou exemplo de jogadas para contextualizar a aprendizagem e aplicar o que aprendeu no jogo de forma satisfatória. Obter isso é essencial para a qualidade do jogo que virá depois. Uma opçào interessante é uma primeira jogada de teste, como as sequências tutoriais que alguns videogames empregam hoje em dia. É eficaz, demanda ainda mais do facilitador no início mas facilita consideravelmente o trabalho depois.
  3. Competição tem um efeito regulador. Os chefes escoteiros estavam muito preocupados em reforçar o aspecto colaborativo do jogo e pediram que os grupos, as patrulhas jogassem juntos e o resultado de todos o jogadores fosse somado como um resultado de grupo. Isso trouxe um efeito inusitado, alguns começaram a abandonar ou “esquecer” regras inconvenientes, como as que tiravam pontos, e tratar o jogo como uma montagem de quebra-cabeças.  Era muito mais frequente ver peças montadas erradas nesses grupos que nos outros. Minha teoria é que quando o aspecto competitivo do jogo é individual todos os jogadores acabam mantendo um policiamento mais rígido das regras justamente porque estão competindo e isso acaba se refletindo numa melhor qualidade da experiência de jogo em si. O que bate com a idéia do Rapoport (1974) sobre a cooperação que existe mesmo nas atividades competitivas. Um jogo é uma competição com regras enquanto uma guerra seria a competição sem qualquer limite. O Keegan inclusive diz que foi justamente essa noção de guerra sem limites que levou a humanidade à beira da extinção com o risco de guerra nuclear .
  4. Iniciativa faz toda a diferença. Nesse aspecto jogos me lembram muito o ensino a distância (EaD). O estudante/jogador está num papel ativo, o que significa que a aprendizagem depende muito mais dele do que de qualquer outra pessoa. Devido a quantidade de participantes, não sei quantos foram mas  sei que foram muitos, a qualidade da explicação de regras começou a deteriorar. Ainda assim certos grupos conseguiram superar a desorientação inicial de jogar algo desconhecido enquanto outros estacionaram no início. Geralmente os grupos mais desagregados me pareceram ter esse problema. Ao mesmo tempo um dos pontos que fez a atividade funcionar bem foi a capacidade de iniciativa dos outros chefes escoteiros que muitas vezes com o mínimo de preparação atuaram como facilitadores.

A experiência foi legal por me mostrar claramente as vantagens, limitações e necessidades da aplicação de jogos educativos em grupos grandes. Diversos aspectos logísticos podem melhorar muito a experiência.  Os escoteiros são um grupo especialmente interessante por serem sensíveis a questão ambiental e também porque é um grupo onde disciplina ainda é considerada um valor. Isso facilitou muito as coisas, especialmente num grupo grande.

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