fonte: HCB

Saiu no site do Hospital da Criança José de Alencar uma matéria sobre o trabalho voluntário que eu faço no hospital.

O trabalho voluntário foi uma forma de continuar o trabalho com o jogo sobre o Cerrado que desenvolvi no mestrado e dentro do projeto Embrapa/FBB de material didático sobre recuperação de mata ripária.  E basicamente eu vou até a internação e jogo com as crianças. Como conversei com a coordenadora de voluntariado na época, concordamos que a atividade do jogo poderia ser especialmente interessante para os pacientes mais velhos. E agradeço imensamente a coordenação do HCB por ter a mente aberta em aceitar e ver o potencial da idéia.

Como muitos deles não podem se mover muito devido ao tratamento, geralmente eu fico pulando de quarto em quarto. Nos dias bons consigo jogar com os dois pacientes e vou andando com a mesa de rodinhas entre uma cama e a outra para que eles possam jogar. À medida que a partida se desenrola comento jogadas ou aspectos do Cerrado enquanto vamos jogando. Com o tempo fui aprendendo a me tornar mais flexível na aplicação do jogo pois o perfil dos pacientes é muito mais variado que numa sala de aula. Assim, enquanto jogador eu “calibro” meu nível de dificuldade de acordo com o paciente de forma a oferecer a ele um desafio mais interessante. O que significa incluir peças e/ou regras de acordo com o caso. Também uso o jogo como um ambiente de aprendizagem instigando os paciente a jogar melhor e aprender a olhar o Cerrado de uma forma diferente a medida que comento o desenrolar do jogo, seja comentando jogadas, regras ou ilustrações.

Ainda assim, admito que meus objetivos educacionais no HCB são um tanto mais modestos. Não estou tentando validar o jogo como meio educacional aqui, estou apenas oferecendo uma atividade divertida para os pacientes, um desafio cujo resultado depende essencialmente da habilidade deles e, para variar, uma situação não-relacionada à doença dentro do ambiente do hospital.  Espero estar oferecendo uma situação que ajude a eles a melhorar sua auto-estima, lidar melhor com a situação em que estão, mas já fico satisfeito se conseguir obter 40 minutos de diversão para eles.

Agora já se passaram alguns meses e minha ocupação das noites de terça-feira já se tornou algo tradicional para mim e logo descobri que para alguns pacientes também.  Um caso assim foi B. que simplesmente adora jogos. Ele aprendeu rapidamente e começou a montar sua próprias táticas, já houve noites em que eu praticamente levei uma surra dele e tive de jogar meu nível de desafio para “jogue o melhor que puder”.

Em outros a necessidade de flexibilidade simplesmente bateu na porta. Um dia desses um paciente de 3 anos de idade me viu com a caixa e pediu “brinquedo”por que ele queria brincar, nada mais lógico. O jogo não foi projetado para essa idade, simplesmente não funcionaria com ele mas eu não podia dar uma de garçom de restaurante ruim dizendo “Desculpe, mas eu não atendo a sua mesa”. Então entreguei as peças para ele e simplesmente montamos um quebra cabeça. Eu indicava as cores e ele juntava uma peça na outra.  Ele estava se divertindo, trabalhando num nível adequado para sua idade e era isso que importava, acabamos fazendo umas duas sessões assim.  Uma criança de 3 anos me ensinou um novo uso de um projeto meu.

Uma dia que estava rendendo muito pouco, ninguém nos quartos queria jogar, acabou com uma sessão de jogo bem legal foi com X. e Y. duas meninas inteligentes que aprenderam as regras rapidamente. Um dos maiores elogios que recebi nesse trabalho foi a cara de maravilhada de uma delas enquanto jogava. Ela se perguntava “Como alguém consegue pensar em algo assim?” e me perguntou diretamente como eu consegui ter aquela idéia. Um tanto surpreso disse que li, joguei jogos, conversei e aprendi com pessoas e tive 1% de inspiração e 99% de transpiração. No me lembrei das dezenas de vezes que pensei olhei o trabalho de outras pessoas e pensei coisa parecida.

Devo dizer que fiquei extremamente honrado em ver uma idéia minha ser inspiração para alguém, o que é bem justo afinal o que criei também foi inspirado num bom trabalho eu vi e fico esperando curioso sobre o que aquela menina fará no futuro a partir daquele momento de inspiração que teve.  Não é só por isso que eu faço o que eu faço, mas também é um bom motivo.

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