Cinema se tornou uma atividade um tanto rara nos meus últimos tempos. Arranjar alguém para cuidar do bebê enquanto desapareço por umas duas horas não é tão fácil quanto parece, mas pelo menos a última visita ao cinema valeu a pena.

No caso fui assistir a Faroeste Caboclo, escrita por Renato Russo do Legião Urbana nos tempos que as músicas não apenas tinham palavras mas, pasmem, chegavam a conter até estrofes inteiras.

Admito que minha vida em Brasília compromete minha imparcialidade, mas eu gostei muito do filme. Há uma nítida influência do estilo do Tarantino, algo de Cães de Aluguel, Pulp Fiction ou o mais recente, Django, principalmente pelas referências ao gênero de faroeste. O filme poderia facilmente cair no ridículo se considerarmos que o cenário era o Planalto Central e a Brasília de chão vermelho e sem o glamour que a Globo adora dar ao Rio de Janeiro. Só o fato e terem conseguido não cair numa caricatura de faroeste, para mim, ressalta a competência do trabalho.

As referências são claras, mas ainda assim temos um trabalho original. A Brasília punk-rock de festinhas em casas no lago e universidades contrasta com as casas pobres, a poeira e o mato das satélites. Em alguns momentos a história de João do Santo Cristo parece se aproximar, quase encostar com Somos Tão Jovens mas não se perde nas referências.

Outro bom aspecto foi o trabalho de adaptação da música de 9 minutos para um filme 1hora e 45 minutos. Eventuais lacunas foram bem preenchidas e a história corre sem contradições. Os poucos globais da trama tem uma atuação competente na qual estão bem acompanhados pelos atore menos conhecidos. O João faz um excelente herói anti-herói e Jeremias um vilão convincente, do tipo que você odeia e Maria Lucia está longe de ser um donzela virginal. O que torna a história mais humana como um todo.

Em suma, gostei muito, é um filme que justifica o faroeste  do titulo e que Renato Russo certamente teria aprovado.

E para não sair dos aspectos educacionais que tanto gosto de abordar nesse blog. Acho que em turmas de nível médio esse filme seria uma oportunidade de observar as diferenças entre o Brasil da época, entre fins de anos 70 e início de anos 80, e o país que temos em 2013. Mudamos pouco? Talvez, mas certamente mudamos. Isso sem falar a análise da linguagem e do trabalho cinematográfico para turmas de nível superior na área de comunicação.

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