Hoje foi a primeira noite de um pequeno, mas interessante, projeto pessoal. Depois de um bom tempo estudando o potencial educativo dos jogos vi a implementar esse jogos é um desafio quase tão complexo quanto criá-los. Se Fullerton (2008) defende que jogos devem ser desenvolvidos através do ato de jogar nada mais justo do que desenvolver um doutrina de uso de jogos educativos através de seu uso prático. Esse foi um dos meu motivos para o voluntariado, mas não o único.

O outro eu imaginei após algumas visitas a organizações que fazem trabalho assistencial e vou comentar no próximo parágrafo. Como sou iniciante no assunto e bom conhecedor das minhas pobres capacidades administrativas resolvi atuar dentro de um grupo bem-estruturado e experiente. A vantagem disso é que não teria de reinventar a roda para fazer meu trabalho funcionar, bastaria me enquadrar a um esquema já testado e no qual eu pudesse me dedicar ao que realmente sei, ou acho que sei, fazer enquanto os aspectos administrativos ficam à cargo de gente mais habilidosa que eu.

Assim, acabei entrando naAbrace, que atua  no combate ao câncer infanto-juvenil e assiste crianças e adolescentes em tratamento e suas famílias. Existem dezenas de atividades e até mesmo um hospital cuja criação já dá uma belíssima história, o HCB, e as atividades e organização da Abrace são de tirar o chapéu.  E  lá observei que havia um espaço onde poderia me encaixar e que seria minha própria modalidade de voluntariado. Há muitas atividades para crianças mais novas, contadores de história, brinquedoteca, música etc. Mas o leque de atividades para os mais velhos é mais reduzido. E foi para esse grupo, de 8 anos em diante que vi um espaço para jogos de tabuleiro em geral. Eles não demandam uma infraestrutura de TI complicada, tem um aspecto social e são portáteis o suficiente para levar até os quartos da internação. E o principal: poderiam criar uma situação em que famílias e pacientes estivessem envolvidos em algo que não fosse a doença mesmo que estivessem no hospital. Posso dizer, por experiência própria,  que poltronas de acompanhante geralmente são horríveis e TV no hospital te entedia muuito rápido.

Cadeiras de quimioterapia doadas pelo ex-vice-presidente José Alencar ao hospital (Foto: G1 DF)

Assim, após muitas conversas com o hospital da criança, um curso de voluntariado e outro sobre como um voluntário decente deve reduzir o risco infecção hospitalar eu pude começar meu pequeno projeto pessoal de voluntariado dentro do Hospital da Criança José de Alencar. Para isso tive até mesmo que fazer uma versão “hospitalar” do meu jogo de tabuleiro recoberta de papel contact para poder passar alcool 70% sem destruir tudo. Considerando minha disponibilidade e as necessidades do hospital combinei com a psicóloga do hospital, de que eu trabalharia com os pacientes da internação no período noturno. Aproveito aqui para agradecer ao apoio e mente aberta de Ana S. coordenadora de voluntariado do hospital por me  ajudar o que era apenas uma idéia em algo viável.

Inicialmente achei que seria mais uma daquelas idéias que ficam bonitas no papel mas na prática são um desastre. Após conversar com o pessoal da enfermaria sobre quais quartos poderia ou não entrar fui liberado e saí passando de porta em porta oferecendo meu joguinho de tabuleiro. Os primeiros resultado não foram animadores, afinal concorrer com a novela das 6h é um páreo duro e naquele primeiro momento eu estava perdendo de lavada. Até que em uma das salas o dedo do simpático K. se levantou. Eu apresentei a mim e ao jogo e começamos nossa primeira rodada. Foi um daqueles ricos momentos em que você percebe que está fazendo exatamente o que deseja fazer. Como ver aquela ocasional fagulha de inteligência faiscando nos olhos de uma criança enquanto ela encaixa peças, o sorriso de satisfação dela na hora em que consegue resolver um problema no tabuleiro ou simplesmente por passar na minha frente no placar. Essas fagulhas iluminam meu dia tanto quanto as estrelas no céu noturno. No tabuleiro eles não são mais doentes, são exploradores, peões, competidores, conquistadores e naquele momento a doença que os levou aquele hospital simplesmente não importa mais. Pode ser por apenas um momento, mas é um momento precioso. K. gostou tanto que ainda jogamos mais uma rodada e ele insistiu para que seu pai e sua colega de quarto jogassem.

Enfim, foi apenas a primeira noite de um longo trabalho, mas foi uma noite promissora.

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