Algo que sempre acompanha uma tragédia hoje em dia é a extensa cobertura jornalística sobre o assunto. E na busca de profundidade é se recorrer à especialistas ou até mesmo celebridades para comentar o assunto. E o caso do massacre de Newtown, mais um tiroteio em escola no EUA não foi uma exceção. Dentre as muitas matérias, opiniões e pitacos sobre o assunto, um que causou muita polêmica, justificada por sinal, foram os comentários da psicóloga Elizabeth Monteiro no programa Domingão do Faustão. Não vou entrar no mérito, se os comentários dela são corretos ou absurdos, no caso eu prefiro analisar o caso como o exemplo de armadilha em que um especialista pode se enfiar.

No espaço de alguns minutos e sob apartes do apresentador, a psicóloga comentou um pouco sobre síndrome de asperger, autismo, psicopatia e o massacre em si. O tempo era curto e público do programa é leigo enfim, comentou sem se aprofundar. Enfim, tivemos um assunto muito complexo com um monte de variáveis reduzido a chavões, generalizações e outros “ões” que indignaram os pais de autistas com razão, porque na fala dela acabou se misturando psicopatia com autismo. E olha que psicopatas não são nem obrigatoriamente violentos como o senso comum e Hollywood gostam de sugerir.

Acredito que o “convite” à psicóloga torna-se uma armadilha porque num programa de variedades como o Faustão a  informação científica é pouco mais que um verniz para dar credibilidade à cobertura do assunto. Ninguém está muito interessado em realmente abordar a complexidade do assunto, apenas dar o seu pitaco no assunto do momento. Seu espaço foi regido pelas demandas do programa como variedade, rapidez, fragmentação.  Infelizmente para a Dra. sua opinião teria um peso não muito diferente do “global” que estivesse no palco naquele momento.

O caso vale para quem quer falar sobre ciência na TV. Por mais que se fale em popularizar a ciência e torná-la mais próxima do público, existem limites que devem ser respeitados. Muitos assuntos simplesmente se perdem se forem simplificados. Como foi aquela infeliz salada amorfa de conhecimento que foi apresentada naquele domingo. Que na verdade era apenas um verniz científico para o apresentador poder apresentar que os pais deveriam reconhecer a suposta psicopatia com uma receita de bolo comentada num domingo à tarde.

A rede globo comunicou uma carta de esclarecimento alegando que o que foi comentado foi apenas genérico e baseado nas poucas e desencontradas informações existentes sobre o caso até aquele momento. A resposta “científica”então deveria ser: “não há dados para se chegar a qualquer conclusão no momento” ou “Quaisquer comentários sobre o assunto estão limitados justamente devido à falta de informação”. Acredito que essa deveria ser a primeira coisa que ela deveria ter dito, definindo sua “margem de erro instrumental” o que a pouparia de ter de escrever outra carta depois. Muita gente torce o nariz para a procissão de conceitos que inicia um trabalho científico e fica ainda mais frustrada com o anticlímax de uma conclusão que soa mais ou menos como: “Com base nos dados analisados é possível concluir que pode-se esperar o resultado Z na situação X sob o contexto Y. Mais pesquisas são necessárias para aplicar isso em outros casos”. Ciência não é um diploma, não é um título, é basicamente método. Métodos estes que se esforçam em deixar claras suas limitações, não necessariamente o que as pessoas gostariam de ouvir.

Enfim, em termos de divulgação da ciência, o caso mostra que certas vezes uma oportunidade para trazer certo assunto a público pode ser mais um problema que uma solução em si. Ciência demanda tempo, discussão, análise e reflexão e isso não pode ser picotado sem se perder algo muito importante.

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