Pode soar estranho, mas chego a ter um ponta de inveja de um problema como esse que vou descrever abaixo. Ainda que seja, de fato, um problema.

O caso está provocando celeuma entre os designers do Reino Unido. O governo conservador, em sua busca por cortes de gastos, está propondo a retirada de matérias relacionadas a artes, design e criatividade do curriculum das escolas britânicas. Ok, agora deu para entender a minha inveja de brasileiro, certo? Afinal, por aqui mal temos um sistema educacional que ensine matemática direito, quanto mais artes e criatividade.

De qualquer forma, medalhões do Design como Neville Brody qualificaram a idéia como um exemplo de insanidade e visão curta do atual governo.  A idéia é reforçar o investimento nas matérias tradicionalmente acadêmicas como matemática, inglês, ciências e “humanidades” uma vala comum onde ficam geografia e história.

Bem, se pensarmos na escola apenas como um centro de qualificação de trabalhadores para o mercado devemos lembrar design é uma das formas mais básicas de se inovar e agregar valor a um produto. O que me parece algo bem adequado para a economia atual. Até porque eu não creio que os britânicos queiram assumir relações trabalhistas no modelo chinês.

Mas, se pensarmos que escola também é um espaço social um espaço onde se busca formar não apenas trabalhadores mas seres humanos o buraco vai ainda mais embaixo. Estudar arte é essencial para criar olhares diferentes sobre o mundo. Um das raízes do pensamento criativo está justamente em se olhar para as coisas de uma forma diferente do usual. Essa capacidade abre caminho não apenas para formas mais avançadas de pensamento crítico, abre espaço para se entender a visão do outro, para a empatia e, em última instância para a tolerância. O aprendizado de artes se baseia muito no aprender fazendo, exercitando, desenvolvendo consciência situacional e percepção. É também uma forma de aprendizagem muito diferente da tradicional absorção de conhecimentos usada em outras disciplinas e um contraponto ao ensino tradicional considerado cada vez mais necessário pelos próprios educadores.

Não e muito difícil perceber que concordo plenamente como o Neville Brody sobre o grau de estupidez da idéia do governo deles. Uma das coisas que achei muito legal do Reino Unido era justamente como o design era cotidiano, enraizado no dia a dia das pessoas. Isso gerava locais mais bonitos, práticos e principalmente uma imensa massa pensante capacitada a pensar em termos estéticos ou mesmo que consiga pensar como designer. Questões como beleza, funcionalidade, criatividade e economia tornam-se parte do dia a dia do cidadão comum. As cidades e os espaços de lá, mesmo os comuns se tornam muito mais belos (mesmo que eu já esteja puxando a sardinha para a arquitetura. Assim, torna-se uma sociedade com muito mais qualidade de vida do que o modelo brasileiro onde essas questões estão reduzidas a grupinhos elitizados.

Se houvesse mais massa crítica na nossa sociedade provavelmente não haveriam essas aberrações como marcas de copa do mundo definidas por júris de subcelebridades desmioladas ou coisa parecida. Ainda que a logo da olímpiada de 2016 tenha sido um gol de placa.

Por aqui ainda vai demorar um pouco, nosso sistema educacional simplesmente ainda não andou para frente o suficiente para arriscar dar um passo para desses trás. Mas nós avançamos, lentamente é verdade e espero que sem cometer as mesmas besteiras que estão querendo aprontar com o povo britânico.

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