Continuando minhas leituras do From Sun Tzu to Xbox: War and Videogames de Ed Halter. Há uma parte bem interessante sobre os jogos ao longo da história.

diz o autor do Homo Ludens desde que sugiram as palavras para definir “guerra” e “jogo” ambos os assuntos parecem se conectar. Um jogo é basicamente uma atividade competitiva, um conflito. E a idéia de um conjunto de regras limitando a ação do participante é um elemento formal do que chamamos de jogo. Ainda que Rapoport diferencie a guerra dos jogos justamente por essa questão das regras, afinal na guerra o objetivo é basicamente produzir dano ao inimigo e limitações são algo contraproducentes. Por outro lado Keegan em seu “Uma história de Guerra” apresenta a evolução da guerra ao longo da história e mostra como diversos povos estilizaram o conflito para, de certa forma, manter a guerra sobre controle limitando o seu potencial destrutivo.

Na primeira parte o autor comenta sobre os jogos da antiguidade, os primeiros ambientes simulados em tabuleiros e peças de predra, madeira e barro. Se o esporte trabalha com os aspectos físicos da guerra, como corrida, lançamento de dardos e arco empregados por soldados, os jogos de tabuleiro trabalham os aspecto tático e estratégico para os comandantes, que precisam ser capazes de desenvolver imagens mentais, planos, esquemas e outras abstrações.

Os jogos assumem diferentes formas e usos de acordo com as sociedades e sua história. Eles podem ser tanto ferramentas para o ensino de estratégia como um modo de se refazer uma batalha para fins de estudo ou mesmo planejar uma. 

Por exemplo, os astecas tinham suas batalhas de flores, conflitos estilizados com estados vizinhos. Os egípcios tinham o t’au um título que pode ser traduzido como “assaltantes” ou “mercenários”. Já foram encontradas ilustrações egípcias descrevendo um faraó e a deusa Isis jogando e em outra um leão jogando com um antílope (e o leão parecia estar gahando). 

Os Gregos jogavam Petéia, onde cada jogador simbolizava uma cidade-estado, na Ática foram encontrados vasos com desenhos referentes à guerra de tróia mostrando Ajax e Aquiles debruçados sobre um tabuleiro jogando petéia, ambos com suas armaduras. Filósofos como Sóflocles tinham boa estima pelo jogo e Platão o usava para ensino em Atenas. Políbio  descreve Cipião o africano como um estrategista capaz de derrotar o inimigo manobrando e bloqueando como um competente jogador de petéia. 

Falando em romanos, esses tinham um chamado Lantriculi, o jogo dos mercenários. Popular entre os legionários, tabuleiros desse jogo já foram encontrados  perto da muralha de Adriano, no Reino Unido e outros locais do antigo império romano. 

No oriente tivemos o Go, também conhecido como Weiqui na China. Seu nome pode ser traduzido como “circular”, no sentido de flanquear, um termo que também era usado para descrever as manobras de caça de grandes animais. As primeiras referências a este jogo podem ser encontradas nos Analectos de Confuncio. Se chegou a ser considerado pelos confuncionistas como uma “arte menor”, junto com bebedeira e jogos de azar. Porém durante o período dos estados em guerreiros, onde a ordem confuncionista foi questionada seu status subiu. Numa época de conflito filósofos ressaltavam a importância da estratégia sobre a simples força bruta. Assim, junto com a Caligrafia, Música e pintura chegou a prática do Go ou Weiqui tornou-se ser uma importante parte da educação da elite chinesa, com uma influência duradoura. No japão o jogo também alcançou status, tanto que os shoguns estabeleceram várias escolas para promover competição e formar jogadores de alto nível. O pesquisador Scott Borman por exemplo vê muito do pensamento do Weiqui na estratégia de Mao, ainda que este não fosse um jogador contumaz.

Na Índia tivemos o Chaturanga, um dos jogos que deu origem ao xadrez. O qual simulava os componentes típicos do exército indiano, como os elefantes, cavalaria, soldados e carruagens. Da India o jogo teria se espalhado para a Pérsia com o nome de Shatranj, Arábia e através destes últimos chegou à Europa na forma do Xadrez que conhecemos através da Espanha dominada pelos Mouros. O Xadrez tinha um papel semelhante ao do Go no Oriente, era visto como uma ferramenta de ensino para a elite. Existem até poemas persas relatando o seu uso instrucional para ensinar aos principes como conduzir seu exércitos.

E olha que ainda nem cheguei nos soldadinhos de chumbo…

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