Entre textos e fraldas estou tendo o prazer de ler esse livro, empréstimo do André  professor de história e um entusiasta dos jogos de tabuleiro. Ainda estou entre textos e fraldas tentando colocar minha vida em novos eixos e, espero, poder retomar minha produção por aqui. Afinal há vários outros livros que vale a pena comentar.

A relação entre o mundo militar e jogos é citada com frequência entre os autores da área. Quase todo o livro sobre jogos começa falando dos antigos jogos de guerra e como a relação entre jogos e aprendizado é antiga, mas poucos realmente se aprofundam no tema como o livro de Ed Halter From Sunt Tzu to XBox (Thunder Mouth Express).

O livro mostra como jogos com temática militar existem em diversas culturas com profundidade, seja do Xadrez ocidental ou o Go oriental. Mostrando como os jogos de tabuleiro funcionavam como os primeiros ambientes simulados, onde o hardware era composto de argila, madeira ou pedra e sobre o qual roda o software que eram as regras de cada jogo e os costumes vigentes no contexto cultura onde o jogo estava inserido. Assim, é possível se fazer paralelos e observar o que há de comum entre o jogador de XBox em um first-person-shooter e outro que move peões em um tabuleiro.

Ao mesmo tempo o autor também discute sobre o uso de jogos como ferramentas para o ensino de estratégia e mais ainda,  como alguns viram tais jogo até mesmo como opção para ritualizar o combate e evitar o derramamento de sangue.

A seguir o autor faz uma apanhado dos diversos jogos antigos com temática militar e sua influência no aprendizado de oficiais e estrategistas em geral, como o T’au, Petteia, Xadrez e Go. O Go por exemplo foi um jogo comum entre militares e literatos chineses. Um autor citado inclusive afirma que Go foi usado para refinar as teorias políticas e militares de Mao Zedong. Vários outros exemplos dessa relação entre jogos e o desenvolvimento de estratégias é mostrado em exemplos chineses, hindus, arábes e europeus.

Foi algo irônico observar que a controvérsia  sobre os “estragos” do exagero no uso de jogos é muito antiga. Em 1561 Castiglione (Halder. p.33) já avisava a jovens aristocratas que deveriam evitar jogar xadrez em demasia. Segundo o autor, uma habilidade moderada em xadrez era mais adequada do que o grande domínio. E Robert Burton acusava o Xadrez em excesso de ser problemático para cérebro, criador e ansiedade e ruim para os estudos em geral.

Mas a partir do renascimento os jogos de estratégia ganharam uma nova dimensão. Nesse período houve uma institucionalização dos estudos militares, já que os próprios exércitos mercenários da europa medieval cediam espaço para os exércitos nacionais. Assim, surgem as academias militares em diversos países, bem como o uso de jogos para treiná-los. Assim novas e mais complexas versões de jogos de guerra foram surgindo, como o Kriegspiel prussiano ou o Le Jeu de la Guerre francês.

 

O avanço tecnológico na cartografia, matemática e óptica aliado a ênfase renascentista em racionalismo e lógica, mostrou aos pensadores militares da época um novo potencial para jogos militares. Indo além das regras gerais sobre estratégia seria possível chegar a uma simulação de batalha muito mais apurada. Assim, se a literatura já fazia frequentes alusões ao xadrez como uma metáfora de uma batalha o campo de batalha do século XVII se parecia cada vez mais com um tabuleiro. As formações militares eram geometricamente montadas, com cuidadosas medidas de suas capacidades e alcance balístico. Não é surpresa que os soldados de chumbo tornaram-se brinquedos comuns nessa época, bem como itens de coleção entre os adultos que mandavam soldados de verdade para lutar.

Os jogos dessa época pouco lembram o antigo xadrez, a hierarquia simples de seu ancestral foi substituída por descrições detalhadas de características e limitações de diferentes tipos de tropa e o terreno tinha diversas variaçòes para imitar o mundo real de forma tão fiel quanto possível. O resultado foram jogos complexos, se o xadrez evocava uma batalha tais jogos se propunham a replicá-las em detalhes.

Talvez um dos pontos altos do livro é mostra como jogos influenciaram o pensamento militar em diversas épocas. O Kriegspiel germânico não só um dispositivo de treinamento, mas também uma ferramenta para o desenvolvimento de estratágias. Sendo estudado por ingleses, americanos e franceses depois da Guerra Franco-Prussiana.

Depois vem mais por aqui. Mas enfim, recomendo o livro para quem quer entender os jogos de temática militar numa perspectiva histórica. Pelo menos você vai poder escrever seu artigo com um clichê muito melhor fornido 🙂

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