No sábado participei de um simpático evento de jogos de RPG, o D30 e foi uma experiência muito interessante. Confesso que fico deveras feliz em ver alguns de meus amigos usarem suas capacidades para promover o exercício da criatividade, inteligência e diversão através do RPG com outras pessoas. Para mim o que eles estão fazendo é um serviço público. Não que eu esteja defendendo a intervenção estatal em jogos de tabuleiro. 

A minha participação envolveu uma curta partida num jogo chamado Fiasco. O jogo é bem diferente dos RPG’s normais, mas se adequa perfeitamente a proposta de um role playing game e foi uma chance de observar algo que considero muito divertido desde que começei a estudar educação e jogos. Como o processo de aprendizado funciona em mim mesmo.

A primeira fase, da explicação das regras é o típico caso de ensino tradicional descontextualizado, como fazemos na escola. O mestre da mesa foi explicando as regras de forma paciente e cuidadosa, mas a falta de um contexto dificulta que eu entenda o seu mecanismo e as regras soam arbitrárias e nebulosas para mim. Tento comparar com outros jogos que conheço, que é uma  forma de adequar os novos conhecimentos que estão sendo apresentados nas estruturas cognitivas que já tenho. Um recurso comum, mas de sucesso limitado já que o jogo é bem diferente de qualquer um que eu conheça. O uso de exemplos pelo mestre é justamente uma forma de dar algum contexto para que eu possa assimilar o conhecimento novo.

Mas tanto eu como o resto dos jogadores preferimos começar logo a jogar. Isso pode parecer preguiça mas acontece que a quantidade de informação descontextualizada que consigo reter é um tanto pequena, no momento elas ainda estariam na minha memória de curta duração. Se eu sair da mesa para bater papo por 15 minutos provavelmente esquecerei uma boa parte das regras que me foram explicadas. Assim preciso exercitar essas informações  dentro do ambiente do jogo tão logo quanto possível, se essas forem internalizadas já posso abrir um novo slot para colocar informação. Enfim, essa é seria a minha explicação de porque a melhor forma de entender um jogo é jogando. O jogo é um sistema que depende do input do usuário para funcionar. E eu entendo melhor observando o sistema funcionando do que ouvindo a descrição que o mestre faz dele.

Assim começamos a jogar. O ambiente do jogo funciona também como um ambiente e comunidade de aprendizagem. Outros jogadores te explicam as regras se você estiver em dúvida, é possível se aprender observando a experiência de outros ou refletindo através da sua própria. Enfim é o aprendizado multidimensional e ocorre a partir de diversas fontes. Se considerar o Fiasco como uma situação de aprendizagem diria que ele é um ótimo exemplo de jogo sócio-construtivista, com todo o Vygotsky que tem direito. A dimensão social da experiência faz toda a diferença, sendo a construção da história essencialmente coletiva, o jogo realmente não precisa de um mestre é imprevisível e ainda assim, ou talvez justamente por isso, extremamente interessante.

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