Entre outras coisas eu trabalho na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa e hoje foi a posse do novo chefe da unidade em que trabalho e nesse meio tempo pude ver o processo de escolha que ocorre na empresa. O processo ajudou a entender melhor porque a Embrapa chegou onde chegou, definida como “o nosso google” pela revista Época tempos atrás.

Ao contrário do sistema de seleção normal em outras instituições públicas, que inclui indicações políticas, conchavos, caneladas por baixo do pano, intrigas e cortadas de goela pelas costas, o sistema de seleção de chefia de centros de pesquisa da empresa envolve uma seleção aberta, transparente, definida por normas e eventualmente competitiva. Já ouvi falar de centros onde haviam seis candidatos ao cargo e o fato de haver mais de um concorrente é considerado um bom sinal.  Os candidatos obrigatoriamente devem se declarar seu interesse em assumir chefia, precisam comprovar experiência e conhecimento em pesquisa e são avaliados por uma junta que inclui até mesmo gente de fora da empresa. O processo inclui propor um plano de trabalho e passar por uma sabatina aberta aos funcionários da unidade que o candidato deseja chefiar, sendo que a proposta do candidato pode ser questionada por qualquer funcionário, do assistente ao pesquisador. E considerando algumas palestras que já assisti por aqui o pessoal pega firme na hora de questionar, já vi gente descer da tribuna suando.

É óbvio que isso não anula uma questão política, depois de um certo nível hierárquico isso se tornar inevitável em qualquer lugar, inclusive fora do Brasil. Mas a questão política passa a ser reduzida a níveis razoáveis e torna-se apenas um fator e não “o” fator, como em certos lugares. Um dos efeitos é que seja quem for o chefe não vai ser um despreparado e a sabatina já vai dar uma razoável idéia do apoio/resistência que o chefe vai encontrar na Unidade. O próprio processo mostra um pouco do ethos da empresa, como a valorização do conhecimento, mérito, visão de futuro e a capacidade de criar e gerir projetos. O plano de trabalho torna-se referência e será lembrando quando o novo chefe for reavaliado dois anos depois. O sistema inclusive evita o acúmulo de vários mandatos e incentiva a rotatividade de chefes, o que acaba sendo uma forma de “ventilar”a chefia, abrindo espaço para a entrada de gente nova, com idéias novas.

Com os concursos públicos acho que a administração pública até consegue gente qualificada para seus quadros. Alguém que consegue superar concorrências de 200 a 300 por vaga com certeza é um sujeito inteligente e determinado. Então um dos grandes problemas que resta a ser resolvido é o dos gestores, colocar gente que presta na função de gestão. Nesse ponto acho que o modelo de seleção de gestores da Embrapa seria a salvação da lavoura para a administração pública. Uma tecnologia “intangível” desenvolvida pela empresa que valeria a pena ser multiplicada.

Enfim, o processo é mais um dos exemplos de porque gosto do lugar onde trabalho, desejo de boa sorte à nova chefia.

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