capa do livroEstou lendo esses dias O grito de Guerra da Mãe Tigre, de Amy Shua. O livro começa como um relato da suposta vantagem educacional da mãe chinesa sobre a mãe ocidental, para avançar mostrando que a vida pode ser mais diversa e imprevisível que as nossas suposições, mesmo as bem referendadas.

O livro começa com uma hipótese levantada por Shua de que existe um ciclo de três gerações nas famílias sino americanas: o primeiro com os imigrantes, que trabalham duro, em poucas oportunidades mas se esforçam ao máximo para garantir a ascensão dos filhos; depois a segunda geração que é bem capacitada, totalmente adaptada ao modo do país anfitrião e vai muito além dos seus pais, é o auge; a terceira geração é feita pelos filhos bem-criados, sem a ausência de recursos das gerações anteriores, mas também pouco motivada e tendendo a decadência. A idéia da autora era evitar que esse padrão acontecesse com a terceira geração de sua família, suas filhas. Sendo altamente experiente em estudos trans-culturais e tem uma formação cosmopolita. Sua família, que é o “estudo de caso” do livro, é uma mistura típica dos tempos da globalização. Uma mãe chinesa, imigrante de segunda geração, um pai americano judeu e duas filhos sino-americanas. O que rende algumas convergências interessantes, como ambos virem de culturas que valorizam a educação.

Ainda que a autora confesse uma ponta de arrependimento em não ter se casado com um chinês, provavelmente devido aos eventuais conflitos com o pai acerca da educação das filhas. Na minha opinião o efeito é contrário, tal conflito acabou sendo uma fonte de evolução.

Ainda assim creio que o melhor ponto do livro é ver a comparação entre dois paradigmas culturais bem diferentes. Várias coisas que já havia lido em Jarvis et al (2003) foram confirmadas por Shua e a autora adicionou mais algumas. Um dos meus pontos preferidos foi a explicação de porque os chineses são tão exigentes com seus filhos, uma das grandes divergências com o ocidente. Os orientais seriam exigentes porque acreditam que seus filhos sejam capazes de superar a dificuldade, na verdade que serão capazes de construir autoconfiança através dessa exigência e superar as dificuldades. Eles vêem a infância como um período de preparação para a vida adulta. Isso é uma diferença chocante com o ocidente quando pensamos nas salas inclusivas e no conteúdo humanizado para ser mais amigável ao aluno. A idéia parece linda na teoria mas já vi in loco como nossos educadores parecem trabalhar mais focados na fraqueza dos alunos do que em sua força. Já vi a suposição de que os alunos são retardados mais de uma vez.

Claro que o sistema não é perfeito, a própria autora fala do seu medo de transformar os filhos em autômatos viciados em trabalho que se suicidam quanto tiram uma nota mediana. Ela mesma admite as limitações desse modelo oriental em sua experiência com suas filhas. Ainda assim, é uma leitura interessante, não é um livro técnico sobre educação mas uma análise sobre paradigmas educacionais diferentes. Há quem diga que o livro é uma defesa da educação tradicional chinesa. Mas será que ela seguiu realmente essa tal educação tradicional chinesa? Creio que não absolutamente porque o contexto e, principalmente, as características da pessoa que está aprendendo influem decisivamente no processo de aprendizado. E ela evita algumas armadilhas, como a xenofobia, a falta de criatividade ou a obsessão por resultados. Nenhuma de suas filhas teve histórico de suicídio.

De qualquer forma, muito do que ela fala é válido,  independente do leitor estar em Beijing ou numa cidadezinha do entorno de Brasília.

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