Um dia desses estava observando meu sobrinhos de aproximadamente 5 anos lá em casa. Havia deixado um Lego©  e fiquei observando eles brincarem. Eu pessoalmente tenho ótimas lembranças do Lego e imaginei que eles fossem adorar, considero um ótimo brinquedo para desenvolver criatividade, habilidade manual e habilidade de solução de problemas. De fato,  foi um dos meus brinquedos preferidos de infância assim que fiquei grande o suficiente para não engolir ou enfiar as peças no ouvido.

Porém o uso que ambos fizeram foi sensivelmente diferente, um reagiu exatamente como eu esperava. Ele desmontou o que estava feito antes, a nave maneira que eu havia feito, inventando algo a partir daquele monte de peças. Para deixar a coisa justa eu dividi as peças entre os dois sobrinhos em iguais. Um continuou mexendo tranquilamente, enquanto era evidente o desconforto do outro em montar algo, não importa o que ele tentasse não parecia satisfeito com o produzia. Enquanto isso o outro estava feliz da vida montando sua nave toda torta a minha estava melhor, mas enfim. Depois de algum tempo o que estava desconfortável desistiu e pediu o videogame. Eu confesso que tive de me segurar, como assim ele se cansou do Lego? Eu estava me segurando para pegar as peças deles. Eu também jogo videogames, mas admito que me surpreendi.

Ok, pode ser uma simples questão de gosto, mas o caso me lembrou uma palestra de um designer anos atrás. O sujeito estava discutindo sobre criatividade em design e sobre como certos alunos seus produziam trabalhos parecidos a um ponto em que era possível reconhecer que efeito de software haviam usado. Ele comentou que um dos problemas do computador é que ele dá respostas rápido demais e muitas vezes as idéias surgem durante a criação de um trabalho, enfim que criatividade também é um processo e como tal demanda um certo tempo de maturação. O Luís Fernando Veríssimo eu acho tinha um texto ótimo em que comentava como certas obras pareciam ter sido lançadas prematuramente, certas idéias ainda que promissoras pediam mais tempo e reflexão para serem plenamente desenvolvidas.  Muitas vezes quando estava desenvolvendo um trabalho eu simplesmente abandonava do computador e voltava para o bom e velho lápis e papel. A boa idéia não estava nas garatujas que saíam no papel, mas vinha do ato de ficar rabiscando-as. No computador, logo surgia algo razoável e tentadoramente cômodo para entregar.

Outro problema é que a tecnologia sobe os padrões de exigência rápido demais. O trabalho de animação pode ser lindo, mas não dá a menor idéia do trabalho que deu para fazer, na verdade é um trabalho muito bem feito pode até parecer fácil. O resultado é que no caso de uma criança o risco dela ficar insatisfeita com as próprias habilidades é muito alto. É algo que acontece com desenho, em princípio toda a criança desenha mas geralmente na pré-adolescência o nível de exigência sobe muito mais rápido que a habilidade em desenhar, até porque os incentivos ao desenho somem e a ela pára com aquela “coisa de criança”. Se a inteligência é algo multidimensional ela também vem da multiplicidade de estímulos e interações possíveis, o ato de manipular uma peça, seja um lápis ou peças de Lego, envolve interações, músculos e neurônios diferentes dos acionados com o apertar de botões.

Enfim um monte de outras variáveis e hipóteses para explicar o que observei, mas não deixo de ter a impressão de que o uso de tecnologia sem critério pode minar o desenvolvimento criativo. Se eu acho então que computadores ou videogames são um problema? Seria um reducionismo besta como a apologia sem critério. Mas acho que há perfis de usuário, tempo de uso e idade certa para jogos sejam um apoio ao desenvolvimento e não um limitante. Se podemos dizer que nosso conhecimento avança quando percebemos o potencial de uma idéia, me arrisco a dizer que no meu caso este conhecimento deve ter avançado ainda mais quando percebo as limitações e ressalvas dessa mesma idéia.

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