Durante os estudos sobre educação ambiental ouvi de vários especialistas que a competição é algo a ser evitado . Ainda não encontrei nada muito assertivo sobre o assunto na literatura, mas creio que esse artigo de pode descrever esse antagonismo entre competição e cooperação. E conversando com o pessoal do Probio foi comentando que o assunto também foi objeto de longa discussão durante a produção do jogo educativo que faz parte do projeto.

O argumento que ouvi é que é a competição denota a visão de que a natureza é algo a ser explorado e consumido. O que me parece bater com a visão do dilema dos comuns de Hardin.  De acordo com essa linha a competição seria algo a ser evitado, principalmente em termos educacionais. Nesses tempos de individualismo e a visão de “o vencedor leva tudo”  somada a nossa tendência de considerar os excluídos e marginalizados como “perdedores” talvez essa visão faça sentido.

Porém me pergunto se cooperação e competição são necessariamente excludentes, principalmente se referindo ao aprendizado. Se o aprendizado é multidimensional e ocorre de forma não linear, sendo o conhecimento construído, muitas vezes de forma coletiva, como defendem os socio-construtivistas,  será que o ambiente social competitivo do jogo realmente seria um inibidor do aprendizado cooperativo? Ou mais ainda, será que retirar ou sublimar a competição do aprendizado uma boa medida?

Me baseando em Anatoly Rapoport (1974) eu acho que não. De acordo com ele, mesmo dentro de uma atividade competitiva, como um jogo, existe cooperação. Dentro de um jogo, os competidores concordam, ou cooperam, ao aceitar seguir as mesmas regras e seguir objetivos que definem vencedores e perdedores. Mas ainda, um competidor geralmente espera do outro empenho em vencer, ambos concordam em ter objetivos diametralmente oposto. Um jogador não necessariamente está procurando uma presa fácil, mas muito pelo contrário, um competidor dificil que torne o jogo e sua vitória mais interessante.  Por exemplo, se o que define a vitória em um jogo de xadrez é a captura da rainha  em princípio pular sobre o tabuleiro e se engalfinhar para pegá-la seria o modo mais fácil e menos cooperativo. Porém se ambos concordam em seguir as regras o jogo corre de maneira civilizada.

Um certo senhor uma vez me ensinou que sempre se negocia para ganhar, para se chegar a um acordo mais adequado para o seu lado. Mas a diferença é que no caso da negociação não se pode ter uma vitória arrasadora sobre o outro lado ou se arrisca a simplesmente ver a negociação terminar. Dessa forma, mesmo na negociação há cooperação. Afinal o objetivo final é conseguir um acordo com o outro lado. E olha que esse senhor tinha larga experiência em uma das negociações mais antagônicas que conheço, entre empresas e sindicatos.

No meu projeto incorporei alguns mecanismos cooperativos e me divirto em ver o conflito de alguns jogadores em dar vantagem para um competidor através da cooperação, ao mesmo tempo em que vejo outros simplesmente negociando uma jogada vantajosa para ambos. Mas dentro da teoria de aprendizagem que estou seguindo é mais importante criar situações onde o jogador passe pela experiência de cooperar  e tenha condições de refletir sobre essa experiência do que lhes dizer se devem cooperar ou não.

De qualquer forma, baseado em minhas leituras e observações, acredito que cooperação e competição realmente possam coexistir. O que existe é uma diferença entre a competição destrutiva, em que a vitória está acima de qualquer custo e pode conduzir a vitórias de Pirro com uma irritante freqüência. E a competição cooperativa, onde um certo nível de competição é aceito e considerado um motivador, mas o objetivo não é a vitória total ou destruição do adversário. E pessoalmente creio que foi essa última a visão de competição que o ocidente andou perdendo.

Nossa obsessão com a vitória total, o nocaute fulminante e a superioridade humilhante de vencedores sobre perdedores é o verdadeiro problema, não a idéia de competição em si.

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