ou Wessex Lane night and day

Não, nenhuma referência a danças em Paris, mas apenas minha última noite num lugar que foi o meu lugar neste período. Um ano que vai entrar na minha história como o ano mais fora-da-curva das minhas atuais três décadas e meia.

O lugar de onde estou saindo tornou-se inesquecível como a minha chegada. Eu ainda estava submerso naquela imensa sensação de vulnerabilidade  ao chegar para viver só na Inglaterra. Depois de me desembaraçar do Home Office segui pela noite adentro, meio molhado, com frio e arrastando mais de 40kg de bagagem, sendo que uma das malas (a maior) perdeu a roda.

No início Montefiore era um labirinto de tijolos soturnos e sotaques estranhos e meu quarto um cubículo muito mais sem graça que parecia nos planfletos. Não muito depois de chegar e aturdido pela sensação de naufrágo que achou uma ilha deserta alguém bateu na minha porta. Não, não era o pessoal da segurança dizendo que houve um engano e eu deveria sair. Foi a primeira vez que vi Irene, Elena e Russlan. Afinal meus vizinhos estavam curiosos com o último morador do Flat 7 a chegar e vieram puxar conversa. Não entendi metade do que eles disseram mas seja lá o que for me pareceu simpático e foi um indício importante para que eu aceitasse o fato de que estava exatamente onde devia estar, ainda que minha mente gritasse o contrário.

Meu novo endereço Montefiore 3 Block T Flat 7 Swaythling, Southampton, Hampshire. Ainda levei mais tempo para assimilar o fato que havia chegado.

Mas o tempo passou bem como a sensação de estranheza. Me lembro das noites de inverno, tirando as luvas para digitar o código de entrada e as sucessivas ondas de calor que me acolhiam à cada porta: a primeira na porta codificada; a segunda ao entrar no flat, geralmente tateando pelos bolsos e torcendo para a chave ainda estar lá e, por fim, meu quarto também conhecido como minha cela ou meu mosteiro. O local onde li, ri, discuti, estudei, dormi e passei boa parte do meu tempo. Graças à passagem da Iana o local se tornou muito mais civilizado e com o passar do tempo consegui transforma-lo no meu lar, meu esconderijo e paraíso pessoal de 9 metros quadrados.

O dia começava com o barulho da Elena ouvindo Friends de manhã, somado ao gosto de pão com geléia na torradeira que o Giorgios socializou com a galera e de chá, outro presente da Iana. Aí era ligar o laptop e começar as leituras matinais para ver quanto casacos usaria na rua e(ou) tentar escrever a genial conclusão de artigo com que havia sonhado na noite anterior. Como eu geralmente não lembrava mais do artigo em situações de emergência, a.k.a. entrega de trabalho, eu podia acordar a qualquer momento da noite para metralhar o note e agarrar a safada da conclusão fujona que eu perseguia em meus sonhos.

Depois disso vinha o ritual do layering, quando camadas e camadas de tecido eram vestidos e na saída eu confirmava que não se fazem capuzes decentes no Brasil. Cumprimentava o Borjan que cozinhava suas saudáveis salsichas de café da manhã e topava com a Elena esquentando o café. O Russ já estava voltando da academia e a Irene com certeza já estava saindo da aula. Após o ritual de encher a corcova a.k.a mochila no qual muito provavelmente eu esqueceria alguma coisa. O vencedor disparado foi o carregador do laptop. Inclusive se alguém prestar atenção nas minhas fotos vai perceber que a mochila quase tornou-se parte do meu corpo.

À noite, após cozinhar eu mesmo a comida que  caç… comprei era hora de comer biscoitos, conversar na web e escrever. Como comentei antes, a noite reassumiu o seu lugar como meu período mais criativo do dia, em minha cela eu planejava tomar o mundo. Em algumas eu dormi tarde, em outras vi o sol nascer da janela. Mas aí já estávamos na primavera, com seus dias bonitos e vento de ar-condicionado.

As sensações dentro do quarto inicialmente sem graça mudavam de acordo com a situação, certas horas o cheiro da minha comida, substituído pela poeira do aspirador. Ou mesmo pela nhaca das roupas para lavar, que era derrotada pelo cheiro de amaciante que permeava o quarto depois de lavar roupa. A manhã além do gosto de torrada passou a ter gosto de chá verde. As tardes de água gelada e sanduíche eventual, enquanto as noites cheiravam a chá que camomila, meu jantar e um flan de supermercado de sobremesa. Várias vezes isso também era acompanhado por retórica procedural, com toques de aprendizagem experiencial, Jarvis criticando Piaget, a implicância de Jones, o tempero brasileiro de Paulo Freire e todos eles batendo no pobre do behaviorismo.

No verão as coisas mudaram um pouco, o calor confortável do T-block tornou-se abafado e o ventilador presenteado por meus país fazia sua guarda toda a noite. Os dias de 16 horas tornaram-se opressivos para um notívago e logo a minha janela tornou-se prateada como uma quentinha. Mas por outro lado meu local de leitura migrou para os gramados dos parques ou as pedras da praia.

Mas os dias passam e meu tempo se esvai. Novamente o outono se aproxima e a temperatura desce rápido, os céus e os tijolos voltam a ser muito parecidos com aqueles que me receberam no início. O que demonstra que o fim pode se parecer muito com um novo começo.

Uma outra vida bate às portas dessa atual, que foi boa mas de curta duração.

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