Passei quase um ano me esforçando para me adaptar à essa vida de acordar cedo. Como o ônibus para o trabalho passava perto de casa por volta das 7h10 meu horário habitual de sono entre meia-noite e uma da matina sofreu uma sentença de morte. Mas o problema que executar isso demandou um longo e esforço processo de estrangulamento de hábitos antigos, mas perto de junho de 2009 achei que tinha conseguido terminar meu processo de transformação de um animal noturno em um ordeiro e produtivo cidadão diurno.

E isso funcionou até vir para a Inglaterra. Chegando aqui a soma de diferença de fuso-horário e excitação de viver num local diferente acordou meu lado noturno com toda a força. Para melhorar minhas aulas só começavam às 16h30, e como cheguei no outono logo estava vendo cada vez menos dia. E apesar dos vários avisos e cuidados sobre a depressão de inverno confesso que passei por esta razoavelmente tranquilo, acho que desfrutar o prazer de acordar tarde por um ano quando já tinha dado isso como parte de meu passado consumado já foi o suficiente para curar qualquer risco de depressão. O resultado é que geralmente acordava tarde, rastejava para o café, estudava um pouco em casa, ia almoçar, biblioteca, aula e minha fase divertida mesmo era noite adentro. Conversava via web, colocava meu blog em dia e escrevia meus projetos mais viajantes, enfim à noite voltou a seu lugar de direito como período mais criativo do meu dia.

Locais de estudo já envolvem outro tópico, meu quarto em Wessex apesar de pequeno atende perfeitamente as necessidade dessa vida de monge estudioso, telefone, boa conexão para internet, prateleiras e até um banheiro próximo. O problema é que depois de muito tempo lá dentro eu começo a me sentir como algo entre um prisioneiro e um naufrago preso num navio de tijolos. Isso ficou bem patente no inverno, porque ficar na rua simplesmente não é uma opção, mesmo com casacos. Ainda assim não reclamo nem um pouco, quase 16 horas de noite fazem a alegria de um noturno e olhar para o tempo lá fora era um incentivo a ficar dentro do quarto, estudando.

Mas de qualquer forma, variar de lugar era uma forma de varrer o tédio e me manter estudando, muitas vezes passava as tardes e/ou noites na biblioteca que era um lugar deliciosamente aquecido, com wireless decente e tomadas para notebook por todos os lados. Havia inclusive opção para marcar salas para estudo em grupo. O nível 2 tem a maior pinta de prisão, com suas salas pequenas e portas grossas, era o que eu chamava de “sala de estudos penal”. Por outro lado há dias em que ela fica exageradamente cheia e barulhenta, até arranjar mesas era difícil.

Uma solução nessas épocas era fugir para as salas de aula, como meu cartão dá acesso as salas mesmo quando não estão sendo usadas e a maioria é muito bem equipada muitas vezes fui para elas, inclusive tive boas sessões de estudo em grupo nelas.

Por fim, veio a primavera e o verão. Foi quando descobri que a praia de Southampton é verde  entendi todas as histórias inglesas sobre pequeniques. A grama daqui não coça e você não se suja ao ficar deitado nela. Centenas de pessoas se deitam nos longos gramados da cidade e da universidade para bater papo, almoçar, tomar cerveja e até mesmo dormir depois do almoço. Havia desde gente de cala social até os operários de construção dividindo os gramados, como eu disse é uma praia verde e sem mar. Nesse período meu fim de tarde padrão era lendo deitado nos jardins, dada minha bateria limitada usava o note pouco, mas para ler e escrever era simplesmente perfeito.

E por fim a minha mais recente descoberta, na verdade uma indicação do Ronaldo, foi a sala de estudos de Connaught um prédio de 1931 geralmente usado por estudantes de graduação, o que significa que com as férias de verão ele está completamente vazio. Mas nele há uma sala de estudos que funciona 24×7 com computadores, mesas e uma impressora inteirinha dando sopa, o lugar tem até uma mini-academia onde posso malhar na hora que desejar, e tudo isso na mesma rua em que eu moro. Segundo o Ronaldo o prédio em si é um dos sobreviventes de Southampton porque a cidade foi muito bombardeada pelos alemães durante a segunda guerra e várias prédios da Uni foram usados como hospitais, o que significa que deve ter morrido gente p/ cacete nestas paredes. O local é antigo, deserto e como só vou estudar lá de noite tenho a perfeita sensação de que estou num filme de terror adolescente. Nos primeiros dias eu usava o banheiro com a desagradável sensação de que se a vida for um filme eu provavelmente morreria no banheiro e minha última participação seria um berro e uma poça de sangue escorrendo por baixo da porta. Por outro lado me lembrei que isso acontece é com a loira gostosa ou o atleta valentão do colégio, ambos bonitos e com cérebro de azeitona. Como eu não me enquadro em nenhuma das categorias não preciso me preocupar. Atualmente estudo tranquilamente por lá até altas horas, primeiro porque o piso e as escadas são de madeira e é impossível alguém entrar na sala sem ser ouvido antes, segundo porque num filme desses eu provavelmente seria um alívio cômico, o amigo zé-mané do mocinho. Isso significa que após algumas cenas assustadoras e engraçadas eu provavelmente saio vivo no final do filme.

Anúncios