Ok, sei que alguns vão torcer o nariz por considerarem que não se pode pensar o ensino para ter lucro e que nos países desenvolvidos e seus altos níveis educacionais isso não acontece. Sim, educação não é um produto, é um serviço e não existe almoço grátis.

Bem, depois de um tempo por aqui e por mais que os ingleses se definam como uma sociedade do conhecimento, prezem pelo welfare state, falem da importância da educação como um formador da cidadania, sociedade, nação etc. observa-se que por aqui ensino também é negócio. Há ótimos recursos e professores e alunos são avaliados porém cursos darem lucro ou ao menos serem sustentáveis é algo que conta e muito.

Só para ilustrar, alunos do estrangeiros como eu pagam praticamente o triplo dos estudantes locais e universidades tem uma pequena, porém sensível, contribuição direta no PIB do Reino Unido.  Outra, com a crise todo mundo está apertando o cinto e, inevitável, a Universidade também sofreu cortes. Uma das decisões foi cancelar o curso de Sport Studies, para indignação de estudantes e professores que alegam que o curso foi fechado por não ser lucrativo para a universidade. O reitor negou e alegou que o real motivo foi o curso não estar produzindo pesquisa dentro do alto nível desejado.

Por um lado o argumento da qualidade é forte, o próprio governo avisou que vai tentar ao máximo manter as verbas das instituições com alta performance e cortar mais das que tiveram resultados mais baixos. Bem, apesar dos Britânicos não serem competitivos como os Americanos eles demonstram que não tem pudores com uma certa dose de meritocracia. Por outro o argumento da grana continua válido mesmo dentro do discurso dele porque boas pesquisas significam verbas e no final das contas mais din-din para a universidade. Ele não falou mas a mensagem implícita é que na hora de apertar o cinto sofrem mais os cursos com menos resultado, o que mostra que eles estão bem sintonizados com a lógica do governo não? Antes que alguém culpe o atual primeiro-ministro lembro que li sobre isso antes da última eleição.  Enfim, o que isso demonstra? Que mesmo para os ricos o dinheiro importa e mais ainda quando o cinto aperta.

O que me leva a pensar num certo Brasil onde o ensino gratuito é quase um dogma. Para ser claro, eu sou fervorosamente a favor do ensino básico e médio gratuitos e de qualidade e se possível o profissionalizante também. A diferença atual é perversa porque serve não só para impedir a ascensão de quem está embaixo como garante menos competição para quem está em cima. Desde que a classe média descobriu que educação rendia poder nunca mais largou o osso. Agora acho que para Universidade o ensino deve ser pago sim, a essa altura a pessoa já deve ter maturidade ao menos suficiente para tomar algumas decisões e dá para começar a sair debaixo da saia da mãe e do estado. Ok, preço razoável para estudantes (eu como estrangeiro por aqui acho que devo pagar mais que o cidadão mesmo), sistemas de empréstimo justo para quem não tem condições de pagar e até sistemas de empréstimo razoáveis para quem encarar isso como investimento, mas parou por aí.

Porém considerando a lamentável qualidade de algumas (muitas) instituições de ensino superior privado no Brasil como e por quê defender isso?

Porque o problema no caso brasileiro não é o fato do ensino ser privado, ou mesmo o fato de visar lucro que o torna ruim. Mas a ausência de um marco regulatório, uma definição clara do que é uma educação decente, principalmente o que é uma educação de nível superior que preste. De fato o modo empresarial brasileiro de gestão educacional no geral é horrendo. E isso é agravado simplesmente porque não há uma definição clara. Se educação fosse carro, seriam carros sem freio e com um motor que explode na subida. O pecado é a educação ser pensada apenas para lucro e seguindo o mais perfeito processo “Go Horse”.

E não me refiro a isso pensando no lucro dos empresários mas no próprio interesse dos alunos. Como ex-estudante de Universidade Federal vi como é tentador se esconder lá dentro ou enrolar para terminar o curso. Ser estudante é uma desculpa social aceitável para um adulto não trabalhar e não ser considerado um vagabundo. E  há algo do gênero humano que nos faz dar valor basicamente a coisas nas quais despendemos algo, seja dinheiro, esforço físico ou intelectual. Então sim, dá-se menos valor a coisa pública ou gratuita porque simplesmente ela está a disposição. E isso fica claro até para aqueles que mesmo pagando não dão valor a isso, como pessoas muito ricas, para as quais uma mensalidade universitária é “troco”  e isso eu vi que acontece tanto no Brasil como fora dele.

Portanto, depois de ter uma experiência (longa) em uma universidade gratuita e outra mais recente em uma universidade paga, a qual me custou muito mesmo, posso dizer que sou a favor da universidade paga por experiência própria. O pagamento ajuda a universidade a ser uma instituição mais sustentável e autônoma, porque no fundo a autonomia universitária brasileira atual está demasiadamente concentrada na boa-vontade do estado.

Enfim, o valor deve ser justo, subsidiado e com empréstimos que não visem lucro de quem empresta. O governo deve contribuir porque educação é um interesse estratégico para qualquer nação mas não deve ser o único a contribuir. Os estudantes devem ter de despender algum esforço, seja ele  monetário ou qualquer outro, para valorizar o que têm. Para eles a questão não é dinheiro, mas garantir que a vaga que estão ocupando realmente tenha algum significado para eles, mais que o dinheiro o que conta é o sentido.

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