Já fazia tempo que andava ruminando sobre o assunto e o excelente comentário da Carol foi mais um incentivo. O outro foi ler um pouco do Homo Ludens, sugestão do Cláudio e referência do TCC dele. O Huizinga faz uma detalhada análise do jogo dentro de diversos aspectos humanos como cultura, guerra e economia. E olhando para essas considerações sobre jogos acabei ‘ruminando’ um pouco sobre como o jogo e competição são vistos dentro da cultura brasileira.

O brasileiro tem uma tendência coletivista, é muito afetivo, nós somos passionais e com uma tendência a ver as pessoas pelas relações que temos com elas. Tratamos bem os amigos por serem nossos amigos, mesmo que sejam tratantes e os adversários… bem adversário é um dos nomes do diabo não?

Em termos de competitividade o brasileiro então parece não ser nada competitivo, mas pessoalmente acho que somos é competitivos demais. Como vemos as pessoas pelas relações que temos não observamos o aspecto cooperativo da competição, sei que as duas palavras soam estranhas na mesma frase mas vou explicar isso mais à frente.  O resultado é que se o brasileiro não apenas acha que tem de vencer o competidor como que esse é um desgraçado por estar no seu caminho e com certeza faz isso de má fé. O brasileiro aparenta não ser competitivo, mas é tanto que às vezes demonstra tanto gosto pela derrota de um adversário quanto pela própria vitória. O futebol é cheio de exemplos, vejam a reação brasileira com a derrota argentina na copa. Parecemos não apenas desprezar competição, aparentemente mas desprezamos o outro quando vencedor, esse é visto como um arrogante ou provavelmente um desleal.  Talvez isso seja até um reflexo da cruel divisão de renda brasileira, entre vencedores (ricos) e perdedores (pobres).

Porém, competição e jogo como o Huizinga é algo que está deveras entranhado no ser humano e outras culturas também a tem, só a manifestam de forma diferente. Como a Carol comentou, o americano é altamente competitivo e individualista. Jones, em Interactive Learning Events de 1988 comenta como o significado do termo jogo é amplo nos EUA justamente porque competição desempenha um papel muito importante na cultura deles. Futebol americano por exemplo tem complexos esquemas táticos, jogadores muito mais especializados que nosso futebol, é praticamente uma guerra estilizada. Porém americanos não se envergonham de perder e mostram suas derrotas, mesmo as econômicas e profissionais com o orgulho de soldados mostrando cicatrizes de batalha, eles celebram sua resiliência nesse momento. Porém americanos não aceitam vencer por pouco, só aceitam vencer por nocaute, por vitória incontestável. Isso de certa forma se reflete na dificuldade que eles têm para encarar guerras de contra-insurgência como Vietnam, Iraque e Afeganistão. Se a vitória não for clara e completa, na cabeça deles significa que estão perdendo.

Outro exemplo seriam os ingleses, eles simplesmente amam apostar, conseguindo fazer apostas sobre tudo e qualquer coisa. Também são competitivos, apesar de sua seleção só ter ganho uma copa e em 1966 eles vibram até hoje, são mais contidos que os brasileiros, mas levam futebol tão a sério quanto. Ainda assim os ingleses adoram comentar sobre a habilidade e técnica do adversário, não por modéstia mas porque isso os enaltece na hora da vitória. Mesmo na guerra esse traço de caratér é visível na forma como descreveram o valor dos soldados argentinos após a arrasadora vitória na guerra das Falklands/Malvinas. Fiquei impressionado como eles elogiam o desempenho da Luftwafe na batalha da inglaterra.

Esse traço inglês por exemplo reflete uma característica dos jogos e competição que o Rapport comentou em 1974 e explica minha estranha frase sobre cooperação ocorrer mesmo num jogo. Em um jogo, mesmo sendo essencialmente competitivo, existe cooperação. Em um jogo que compense ser jogado o jogador procura um competidor que seja um real desafio e ambos concordam em seguir as mesmas regras e sabem que tem objetivos diametralmente opostos. A diferença entre a guerra e o jogo como formas de competição e/ou conflito é que a primeira tem como objetivo produzir o máximo de dano ao oponente enquanto o segundo objetiva mostrar superioridade de um jogador dentro daquele ambiente (o jogo) sobre outro.

O que o brasileiro, mais focado nas relações com as pessoas que nas pessoas em si, está perdendo é a fronteira entre competição e guerra. Isso pode ser visto em discussões políticas, em que a discussão hoje em dia é “meu corrupto é melhor que seu” do que em idéias, propostas e cia. Na verdade chegamos a pontos em que se prefere perder tudo desde que se garanta que o adversário perdeu também.

Portanto, uma das coisas que acho que nosso sistema educacional precisa recuperar é uma forma mais saida de encarar a competição. Ainda que os finlandeses tenham ótimos resultados com cooperação não somos finlandeses e também não acho que a meritocracia aos moldes americanos funcione por aqui,  esse é um caminho que terá que ser pesquisado e desenvolvido localmente. A questão cultura não é um monolito imovível a qual devemos nos sujeitar. Acho bobagem essas descrições falando da cultura brasileira como um câncer hereditário e incurável, para mim isso demonstra apenas a dor de cotovelo dos que não nasceram no primeiro mundo. Porém o fator cultura não pode ser ignorado e temos de desenvolver soluções para lidar com ela, não ensinar apesar dela.

Um bom exemplo pode ser visto em inovações,  como Abbad, Borges-Andrade e Mourão (2006) comentam uma inovação, independente do mérito só é aceita pelos membros de uma organização quando esses conseguem ver essa inovação como vantajosa. Podem ser fazer cartinhas, eventos, ordem de diretoria e etc. mas é preciso ter sensibilidade e habilidade para se fazer o fator cultural jogar a seu favor. Sem observar a questão cultural certas vitórias são dificílimas, sabendo utilizá-lo elas são bem mais fáceis.

E  ainda tem gente que acha que estudos sobre cultura são bobagem.

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