E na semana que vem termina oficialmente a ‘taught fase’ do curso, a parte das aulas terminou e agora estamos entrando no solitário deserto da construção de nossas próprias dissertações em si. Para pontuar o momento alguns alunos e professores foram jantar no Pilgrim´s House lá no centro. E a idéia foi ótima, estamos tão corridos com nossos trabalhos e afazeres que simplesmente havíamos esquecido de que logo não íamos nos ver mais. A fase das bandas acabou, agora é o momento das carreiras solo.

Ainda assim foi uma noite divertida onde eu tive uma longa e interessante conversa com a Zhen, minha orientadora, sobre a vida acadêmica e o desenvolvimento da dissertação, não falamos exatamente sobre o trabalho mas sim como é essa fase da vida. Comentei com ela sobre o primeiro texto que o Martin me mandou, antes até de ser aceito no curso, e eu confessei para ela como como o texto me pareceu complexo, profundo e meu me senti um semi-retardado tentando entender aquilo. Ela riu e me perguntou se era um dos artigos dele, o que eu confirmei, e riu mais ainda dizendo que é algo normal para ela. Martin foi orientador dela no doutorado os dois são colegas de trabalho hoje em dia e ainda assim fica ela surpresa com a qualidade dos artigos dele e também demora para entender de vez em quando. Além disso ela me descreveu algumas situações durante o mestrado e o doutorado dela que são bem semelhantes a certas situações que passei: como aqueles dias de inverno em que a gente se dá conta que não disse mais de 10 palavras durante o dia inteiro, pois na maior parte do tempo ficamos num quarto ou báia de biblioteca enfurnados em livros, escrevendo e pensando, a mesma coisa dos dias anteriores. Ela me descreveu o processo de escrever dissertação e tese como algo parecido com nadar no meio do mar, se você pensar na profundidade ou na distância da praia vai se perder e o correto e dividir o trabalho em tarefas menores e mais factíveis sem perder a direção correta. É um período em que se aprende muito sobre o conteúdo, mas ainda mais sobre si mesmo. Se aprende a lidar com a solidão, insegurança e incerteza e aceitá-las como algo normal da vida, pois em alguns momentos até mesmo os orientadores vão estar em alguns lugar da praia ou do mar e mesmo você não saberá que direção está tomando.

E entre algumas piadas e outras conversas percebi que todos esses momentos e pessoas que foram tão presentes na minha vida nos últimos 6 meses logo irão embora e provavelmente nunca mais as verei de novo. São momentos que devem ser vividos ao máximo pois são impossíveis de serem mantidos ou sequer recuperados. A universidade inteira é um grande centro de convergência passageira, uma esquina do mundo, um grande novelo de lã de vidas alheias onde conheci pessoas de mais de vinte países diferentes e provavelmente não verei nenhuma delas novamente. Segurar ou eternizar esse momento seria frustante e enlouquecedor, resta apenas aceitar que tudo muda.

O que vou reter daqui é o conhecimento aprendido e a lembrança dessas pessoas queridas, a experiência construída sobre o que sabia antes e que agora me leva a perceber o mundo de forma diferente, e muito mais rica. O que pensamos agora muda a forma como vemos e vivemos o futuro, pelo menos se aprendemos alguma coisa. Foi muito bom curtir ela de novo com a consciência que eu tenho hoje.

A experiência por aqui é como um floco de neve, belíssima e passageira.

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