Particularmente interessante o artigo Distance Education and Corporate Training in Brazil: Regulations and interrelationships (Educação a Distância e Treinamento Corporativo no Brasil: Regulamentações e Interrelações) de Stella C. S. Porto e Zane L. Berge da universidade de Maryland. Encontrei o artigo enquanto pesquisava material sobre ensino a distância no Brasil e depois de um bom tempo lendo artigos animadores creio que este foi uma necessária ducha de água fria. Não que eu concorde 100% com o artigo, mas é uma análise com o grau de crítica necessário para entendermos os rumos e o grau de avanço do EaD aqui na Terra Brasilis.

O artigo comenta que a consolidação do EaD no Brasil corre de forma mais lenta que em outros países em desenvolvimento sendo esta lentidão consequência de uma tradição excessivamente centralizada e reguladora de nosso sistema educacional que é descrito como inflexível e não negociável. Dentro do qual o Ead sofre de baixa credibilidade dentro da comunidade acadêmica brasileira, onde se teme que cursos baseados na web tornem-se academicamente desonestos e sem capacidade para educar de forma efetiva.

Em 2005 o governo decretou leis normatizando o Ead porém limitando seu uso a duas situações: complemento do aprendizado e situações de emergência. No nível superior ainda não foi autorizada nenhuma pós strictu sensu (mestrado e doutorado). E ainda assim, segundo os autores, os cursos devem manter componentes presenciais, como avaliações e defesas de projeto final. O que ilustraria o argumento da centralização e rigidez do sistema educacional brasileiro. Mesmo em projetos ambiciosos como a Universidade Aberta do Brasil (UAB), um consórcio de universidades que oferece programas de graduação para professores, mantem os requerimentos presenciais.

O resultado é que a maioria dos cursos em Ead no Brasil é de cursos híbridos ou semi-presenciais e ainda assim com grande uso de material impresso em vez de material via web. O que, do ponto de vista dos autores, demonstra como o EaD brasileiro está atrasado. E que o progresso brasileiro é lento em comparação aos países que estão procurando usar modos mais avançados de educação a distância.

Os autores ainda apontam outras limitações, como a ausência de instituições dedicadas ao EaD no Brasil. Ainda que a UAB siga justamente por este caminho talvez não seja considerada uma iniciativa plenamente amadurecida (que é um modo bem acadêmico de dizer que não sei se vai “pegar”). Os autores também falam sobre o fato da educação brasileira ser gratuita e portanto baseada no sistema público. O que eu discordo, a afinal existe um número crescente de instituições privadas, muitas inclusive funcionando com forte ênfase no EaD como a AIEC. Eles também criticam a ausência de uma preocupação de mercado no sentido de satisfazer o cliente. Porém aqui o problema aqui é que o governo tem de tomar cuidado em separar a faculdade privada que deseja ganhar dinheiro educando (o que é ótimo) das que querem “vender diplomas a prazo” (o que é horrendo mas acontece).

Porém a limitação que achei mais polêmica foi quando eles comentam sobre a ausência de uma tradição em pedagogia em ensino a distância e na “dificuldade em se encontrar especialistas no assunto capazes de estabelecer gerenciar projetos de larga escala” (tradução minha). Acusando uma tendência dos especialistas a serem acadêmicos com experiência apenas teórica em Ead, ou seja profissionais que pensam EaD mas planejam e agem com foco de ensino presencial. O artigo também fala sobre a incapacidade das universidades de trabalhar com técnicas mais modernas de EaD devido às limitações legais e a ausência de profissionais qualificados para o EaD em si.

Por outro lado, sem a centralização e regulamentação característica do meio acadêmico, no meio corporativo as coisas parecem andar mais rápido. Segundo o artigo já temos várias universidades corporativas que em alguns casos tiveram tanto sucesso que chegaram a se tornar marcas em si e passaram a oferecer seus serviços para outras companhias.

Ainda assim o sistema educacional do estado ainda não conseguiu resolver a questão da certificação destas instituições. A Universidade Corporativa dos Correios por exemplo já está estabelecida há décadas sofreu muita resistência do MEC ao tentar reconhecer sua universidade corporativa como universidade de fato e obter reconhecimento de seu curso de administração postal. Um detalhe essa dificuldade foi para implantar um curso presencial, provavelmente uma versão a distância sofreria ainda mais barreiras.

De fato, um dos pontos que me chamou a atenção foi a disposição em colocar o dedo na ferida de certas limitações de nosso sistema educacional. Como a cronica desconexão entre o que as instituições públicas podem oferecer e as necessidades da nação. Ausência esta que deve se tornar ainda mais aparente com o crescimento da economia. Por outro lado aos fato dos autores não deixaram de observar o rápido crescimento do meio educacional corporativo para fazer frente a essas mesmas demandas de força de trabalho qualificada.

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