O SBT Brasília publicou uma matéria sobre o trabalho dos voluntários da Abrace (Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias), oferecendo uma perspectiva mais ampla do trabalho que é feito pela entidade que eu já citei por aqui em outras ocasiões. Com destaque para o que nos motiva e o impacto do nosso trabalho junto aos pacientes e pais. Agradeço especialmente ao SBT pelo que suponho ser o foco em interessar mais pessoas em fazer trabalho voluntário (isso vale para você, leitor). Afinal, quanto mais gente fizer, melhor será para a sociedade.

Para mim foi interessante para apresentar a pequena parte que me cabe nesse latifúndio incrivelmente produtivo chamado Abrace. E me reforçou o desejo de fazer teatro ou, pelo menos, um pequeno media training.

Estou trabalhando com eles há alguns anos e ainda me surpreendo com o profissionalismo, foco e eficiência da Abrace e a recomendo para qualquer interessado pelo voluntariado. É impressionante o que um grupo de pais de crianças portadores de doenças foi capaz de fazer. Porque ter uma estrutura eficaz te apoiando faz toda a diferença. É o que fez uma entidade assistencial fazer parte de um dos melhores hospitais que já vi na minha vida e ter orgulho das poucas horas que dedico a esse trabalho. Mesmo que eu pegue a parte divertida, ainda é um trabalho, um compromisso e também têm seus momentos pesados, mas vale a pena e meus colegas voluntários souberam descrever isso muito bem. Trabalhar para ganhar um bom salário é algo bom e necessário, mas existe um retorno em fazer algo que te dá sentido que é incomensurável.

A matéria saiu no SBT Brasília no dia 29/12/16 e está disponível 
(acessada em 18/01/17).

Agradecimentos em especial à equipe de imprensa do Hospital por me arranjar o link tão rápido.

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Hardy, criação de anos 60
da Hanna-Barbera (atual Cartoon Network) e excelente descrição de pessimista
fonte: Palavras na Gaveta

Sim, aquele seu amigo com um urubu no ombro acha que ficou lindo e vamos explicar porque a ave chama essa atenção toda.  Para isso lá vamos nós com mais uma resenha descuidada, baseada em um artigo sugerido por minha amiga Bia Lins no Linkedin e de autoria de Morgan Housel, com o título original de “Why Does Pessimism Sound So Smart? Especially when things are so good.” que pode ser traduzido como”Porque o Pessimismo soa tão Esperto? Especialmente quando as coisas estão tão boas.”

Porque o cenário atual faz a alegria dos pessimistas

Primeiro é preciso entender, no geral as vida, a sociedade e tudo mais vão bem ou mal? Ainda mais considerando que o mundo ainda está se recuperando de uma grande recessão em 2008 e o Brasil ainda está lutando com a sua que começou em 2014. De fato, se observamos a avalanche de notícias ruins, verdadeiras ou falsas, que se espalham pela internet e outras mídias é difícil evitar a impressão que as coisas estão piorando.

Porém existem evidências de que, talvez estejamos na melhor época da humanidade, como observado em por Steven Pinker  em seu livro que afirma que, na verdade, a violência humana está em declínio. Sim, claro que o aquecimento global é um problema, a guerra na Síria e o número de assassinatos no Brasil continuam sendo problemas sérios e ainda serão por um bom tempo. Mas o ponto dele é que na análise fria dos números a violência está se tornando mais rara e menos aceitável a medida que o tempo passa.

A questão é que nossa percepção parece dizer que as coisas estão piorando. Tanto que as histórias sobre distopias e futuros apocalípticos já fazem tanto sucesso que estão dando dinheiro.   Hoje somos bombardeados por informação sobre todo o acidente ou incidente que acontece, seja ele provável improvável, distante ou próximo. No final todos os casos parecem próximos e prováveis e devemos nos proteger, em alguns casos até demais. Algo que o sociólogo alemão Ulrich Beck denominou “Sociedade de Risco”. Onde a instabilidade e a constante mudança, muitas delas provocada pelo ser humano,  e a falta de referências que caraterizam nossos tempos enfatizam essa sensação de perigo. As profissões para que existem hoje podem desaparecer em poucos anos. Querer ter um emprego e viver sua vida de forma segura sem muitas atribulações pode ser considerado um sinal de fraqueza para quem nasceu nas gerações mais novas e todo mundo deveria ser um líder arrojado que ri na cara do perigo. Existem milhares de opções para tudo mas só vale se for a melhor e tem de ser agora. É possível entender porque isso provoca tanta ansiedade e faz o consumo de medicamentos pular? Todo esse “estímulo” teria no deixado ainda mais ligados nessa questão de risco e até por uma questão de sobrevivência acredito que estamos mais acostumados a ver risco como algo a ser evitado do que gerenciado, o que seria a opção mais razoável.

Mas tem outro fator: o pessimismo é charmoso

Pelo menos é essa a hipótese  de Morgan (o autor) ao afirmar que o pessimismo parece esperto, especialmente quando os tempos não são tão ruins assim. Uma pesquisa da professora Teresa Amabile observou que críticos que fazem resenhas negativas são vistos como mais espertos do que aqueles que dão resenhas positivas sobre o mesmo livro. Só o pessimismo seria profundo enquanto o otimismo parece superficial.

O prêmio Nobel Daniel Kahneman considera que existe uma resposta evolutiva que nos faz reponder com mais força para a perda que para o ganho, o seu Nobel veio desse estudo. Outro detalhe interessante: ele não é um economista, mas um estudioso de comportamento (psicologia) aplicado à economia. Como disse Deirdre N McCloskey, historiador, escrevendo para o N.Y. Times: “Por razões que eu nunca entendi as pessoas gostam de ouvir que o mundo está indo para o inferno”.

5 razões para explicar o charme do urubu

Morgan, elenca algumas razões que observou para explicar porque o pessimismo ganha tanto destaque

1. O otimismo parece ignorar os riscos. Assim, à princípio, o pessimismo parece ser mais inteligente. O que seria uma visão equivocada de otimistas com noção. Muitos entendem que existe o risco real de desastres, recessões, guerras, pandemias etc. Mas se consideram otimistas porque se focam em processos mais longos, como carreiras, projetos e aceitam que eventualmente será preciso enfrentar os momentos ruins. O pessimista considera o evento ruim como o fim da história, o beco sem saída. Enquanto o otimista considera o evento ruim como parte de uma boa história. Pessoalmente acho que a diferença estaria na perspectiva de tempo, na resistência e, especialmente, resiliência do otimista.

2. O pessimismo mostra que nem tudo está indo na direção certa, o que ajuda a racionalizar as próprias limitações. A miséria adora companhia. Observar que coisas fora do seu controle podem ser a causa dos seus problemas e não as suas próprias decisões é um sentimento reconfortante pois alivia a sensação de responsabilidade. Assim, sutilmente o consideramos atraente. É comum naqueles pessimistas reclamões que sempre têm uma queixa a relatar e deve fazer o maior sucesso nessas igrejas que adoram culpar o diabo por tudo.

Nesse aspecto, acredito que a questão também se liga um pouco ao tema da inveja. O que me lembrou uma fala do Leandro Karnal em um Café Filosófico: Para observar quem são seus verdadeiros amigos ele sugere um “teste Heidggeriano”ótimo: Diga que está tudo bem e você está numa ótima fase e observe a reação dos outros, as sutis. Se a miséria e os problemas despertam a solidariedade e o desejo de ajudar é um tanto lógico esperar que o sucesso eventualmente desperte o efeito contrário. O que levaria a alguns possíveis avisos pessimistas de seus amigos

Por outro lado uma certa dose de pessimismo também pode ser uma fonte de reflexão para a melhoria pessoal o que se conecta com o argumento número 3, o que não é necessariamente ruim. Na verdade essa não é uma discussão de valor (pessimismo ruim x otimismo bom).

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Autor: Carlos Ruas

3. Pessimismo requer ação enquanto o otimismo significa deixar as coisas como estão. O pessimismo ganha a nossa atenção porque geralmente envolve a tomada de ação. Enquanto o otimismo é mais “de boas” sobre manter o curso, como observado pelo foco de longo prazo do otimista descrito antes. E manter as coisas como estão é algo muito mais fácil de ser ignorado. Em termos de ganhar nossa atenção nada têm tanto apelo como um problema que deve ser resolvido. Mas, por segurança,  é preciso lembrar  que o otimismo pode ser uma desculpa para a preguiça ou auto indulgência.

4. O otimismo soa como conversa de enganador, enquanto o pessimismo soa como alguém tentando te ajudar. O que de vez em quanto acontece mesmo. Acredito que os estelionátrios são pessoas otimistas em sua capacidade de convencer suas vítimas que vão ter altos ganhos com pouco esforço, além de mestres em despertar o otimismo da vítima. Por outro lado Morgan considera o otimismo o padrão correto e observa que o pessimismo pode ser um argumento tão bom quanto qualquer outro, especialmente em torno de assuntos emocionais como dinheiro e política. O medo também vende que é uma beleza.

5. Pessimistas extrapolam tendências presentes sem considerar como os mercados se adaptam. O que é importante porque visões pessimistas frequentemente começam com um fundamento em análises racionais. Assim, o aviso parece ser tão racional quanto assustador.

Aqui precisamos entender que nosso autor é da área de economia e mercado. Tanto que em seus exemplo ele mostra uma declaração de um ambientalista, feita em 2008. Que considerava que em 2030 a China precisaria de 90 milhões de barris de petróleo por dia e, na época, a produção mundial total era de 85 milhões com poucas mudanças. E ele estava certo, o mundo ficaria sem petróleo naquele cenário. Porém, não é assim que os mercados funcionam. A falta fez o preço subir o que incentivou o desenvolvimento de novas técnicas de perfuração, como demonstrado pela descoberta do pré-sal e o expertise brasileiro em coleta de petróleo em mares profundos, e agora temos petróleo sem muito problema. Na verdade, o problema dos últimos anos foi que temos petróleo até demais e o preço despencou. O Rio de Janeiro que o diga.

Outro exemplo é a velha previsão de Malthus sobre o crescimento da população e a produção de alimentos, uma previsão que teve suas pernas quebradas com a revolução verde na agropecuária. Na qual o Brasil faz uma honrosa participação, especialmente através da Embrapa. Essa falha em considerar a capacidade de adaptação é uma causa comum para o fim da maioria das previsões pessimistas.

Conclusão

Ainda assim o autor deixa claro que é preciso ouvir os pessimistas. Como elencado no item 3, eles mostram onde é preciso agir e avisam sobre as pedras no caminho à frente. Até para voltarmos a ter razões para sermos otimistas. Nesse caso a questão não é o pessimista ser charmoso, é ele estar certo ou não.Não ignore os pessimistas, apenas não se deixe levar por eles e, de forma saudável, desconfie de suas agendas. Afinal, como sugerido no livro O Otimista Racional mesmo que os indícios específicos possam ser ruins, talvez o quadro geral seja melhor do que aparenta.

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fonte: VisitBritain/Britain on View | Getty Images

Recentemente li no Linkedin uma matéria sobre a abertura de uma escola para clientes de altíssima renda que vai ser aberta em São Paulo. A escola é americana e vai para o Brasil depois do sucesso da Graded School em São Paulo. Para ilustrar os custos de uma escola desse tipo: a taxa de matrícula de é 40 mil reais e as mensalidades podem ser de até 8 mil reais. Sorry periferia. O foco da matéria não foi educação, mas o mercado de luxo. Então, o foco foi maior nas instalações, matérias oferecidas e objetivos. Não seria justo exigir muita coisa em termos de pedagogia.

Por um lado, acredito que as pessoas que podem bancar esse custo devem ter direito a escolher a escola que preferirem, diversidade de opções não é necessariamente um problema. E a existência de escolas de elite não é exatamente novidade, ainda mais num país desigual como o Brasil. Na verdade, há quem considere nossas universidade públicas e gratuitas bem elitistas, como esse artigo e esse outro. Mas esse já é assunto para outro tópico.

As armadilhas

Por outro lado, além do artigo sobre as caras instalações da escola, com direito à lagosta no almoço,  alguns bons comentários deram o que pensar. Um dos raros casos em que valeu a pena ler a parte de comentários, parabéns ao Linkedin. O primeiro foi esse do José Finocchio Jr que levanta uma questão pertinente.

“Visitei uma escola de elite em moema, não tinha um único estudante negro. UM. eu disse UM. Não sou comunista muito pelo contrário, mas esse isolacionismo nunca, nem por sonho formará lideres do mundo. Vai formar sim crianças mimadas que vivem numa bolha. Graças a Deus ainda não inventaram inteligência comprada, e o menino pobre …paupérrimo super inteligente detona todas essas crianças mimadas. Não existe maior estimulante intelectual que a dificuldade. (…)”

O fenômeno da ausência de negros que ele observou não é algo incomum e uma possibilidade provável no caso dessa nova escola em São Paulo ou qualquer outra de alta renda ou mesmo de classe média. Eu mesmo tenho uma conhecida que tirou os filhos de uma escola particular porque eles eram os dois únicos alunos negros da escola, o que rendeu os problemas esperados. O que não é nada mais que um reflexo do nosso triste quadro de desigualdade e mostra como a classe social não necessariamente os protege do racismo. Talvez até os deixe ainda mais expostos, por serem poucos em determinado ambiente ou por eventualmente aparentarem estar “fora de seu devido lugar” na visão de algum racista de plantão.

O que também mostra um outro risco desse “efeito bolha”. Além do racismo observado por Finnochio há o isolamento em um ambiente uniforme, com pouca diversidade e que pode eventualmente limitar as percepções de mundo dos estudantes. Fazendo com que eles achem que “todo mundo é como a gente”. Assim a escola se tornaria uma “enlatadora de crianças” de classe mundial que vai entregar alunos com ótimas notas no PISA, toneladas de conteúdo na cabeça mas eventualmente com pouca autonomia, criatividade e bagagem emocional e/ou cultural. Coisas que também são trazidas como consequência de lidar com as diferenças e geralmente obtida fora de ambientes assépticos e 100% seguros.

Nesse aspecto mesmo as caras faculdades de elite do mundo, como Havard ou Oxford, também são mares de diversidade, com gente de todo o mundo e bolsas para manter pessoas não tão abastadas, mas provavelmente muito inteligentes, que possam contribuir com a universidade e o ambiente acadêmico. É preciso lembrar que aprendizagem está mais ligada a interação com outros seres humanos do que com as instalações da escola ou o equipamento utilizado em sala de aula. A criatividade frequentemente vêm com o contato com diferentes visões de mundo. O que explica muito certas metrópoles cosmopolitas como Nova York, Londres ou Tóquio caraterizadas por sua diversidade.

As soluções

Por outro lado, apesar de considerar o efeito bolha um risco real. Também li um belíssimo contraponto em outro comentário, de Marcia Catherine Wright, sobre a formação dela numa escola Britânica  e como a instituição evitou esse “isolamento de casta” entre seus alunos de forma magistral.

“Sou estrangeira e por isso estudei na Escola Britânica não mencionada no artigo talvez porque hoje em dia a mensalidade para os adolescentes gira em torno de RS$18mil/mês. Naquela época não seguíamos a grade brasileira porque o objetivo era oferecer a mesma formação que era oferecida na Europa a quem estava no Brasil. Alem de filhos de diplomatas, haviam filhos de expatriados e bolsas pra gringinhos cujos pais não podiam pagar. Afinal era uma extensão da cultura da comunidade o que incluiria a 1a igreja protestante, a Anglicana, casa de repouso pros gringos idosos, etc. Ser sócio-responsável e abraçar causas passando o dia com outras crianças atendidas por projetos sociais era prática comum e regular pra não criar uma geração alienada mesmo que num país onde do lado de fora da escola, amigos não faziam isso. Muitos de meus colegas, como eu, até hoje são voluntários regulares e é com alívio que não mais somos criticados por sermos diferentes e nos misturarmos naturalmente com “subordinados”, “gentalha” e outros termos que ouvíamos dos brasileiros que quando não racistas (tínhamos africanos, orientais etc na classe) discriminam outros seres humanos por sua condição sócio-econômica, optam pelo assistencialismo sem envolvimento psico-emocional (doações em dinheiro, roupas, brinquedos, etc) ao invés de compartilhar conhecimento e afeto e transformar vidas, como hoje vemos virou “chic” abrir ou fazer parte de Ongs. Por mim, pouco importa em qual berço o voluntário nasceu(porque isso tb é discriminação), sendo relevante o fato de ao invés de reclamar, coloque o coletivo acima de ideologias e interesses pessoais e priorize seu tempo para compartilhar valor com quer “menos favorecido” trabalhando pro bono, moldando a sociedade desejada por todos. Isso se aprende em casa e se reforça na escola, ainda pequeno mas requer não “propostas” e sim que seja um valor cultural , uma prática considerada natural. Aqui quando o gringo faz isso porque tá na veia dele – permanentemente ou periodicamente enquanto em casa come lagosta (e isso é assunto privado, outra coisa que se respeita)- é chamado de “louco” só porque o faz com amor.”

Conclusão

Sim, o risco da bolha existe e acho que parte da classe média e alta no Brasil sofre disso. Mas, como demonstrado pela Márcia, isso está longe de ser inevitável. Como observado na Escola Britânica, não foi apenas uma questão de fazer obras assistenciais, mas promover um ambiente diverso e criar vínculos entre os alunos e as pessoas atendidas pela escola através do trabalho. Nem toda a criança rica precisa se tornar mimada. Na verdade seu desenvolvimento vai refletir muito mais os valores da escola e da família dos estudantes do que seu nível sócio-econômico. E espero que essa nova escola, a Avenues, seja capaz de produzir os líderes mais humanos e capazes que o país e o mundo precisam.

P.S.

Para quem pensa no status de ter os filhos em uma escola de ricos aproveito para lembrar um detalhe interessante: Nos países que permitem o ensino em casa alguns desses bilionários estão trocando as escolas por tutores. A criança terá 100%  de atenção do tutor, e a logística de deslocamento é reduzida, especialmente porque filhos de ricos são alvos de sequestro e eles gastam uma nota em segurança.  Porém, mesmo as empresas de tutoria, que devem ser muuito mais caras, não recomendam o uso de tutores por tempo integral por muito tempo. Justamente porque os alunos perdem em desenvolvimento de certas habilidades sociais ao conviverem a variedade de colegas oferecida por uma escola. Então, menos preocupação com exclusividade e mais foco no resultado.

Não, esse não foi um post patrocinado mas eu fiz do mesmo jeito. Considerem como um relato de experiência e observação de teorias de aprendizagem e desenvolvimento de competências ocorrendo no cotidiano.

Para quem acompanha esse blog o interesse de seu autor por jogos e aprendizagem já é conhecido. Afinal, um dos meus trabalhos preferidos, a ponto de ser voluntário, é ensinar crianças a jogar. Logo, ensinar meu filho foi praticamente uma questão de honra. Porém, ensinar a jogar é um momentos frequentemente subestimado mas fundamental para a diversão existir.

No caso essa fase foi ainda mais complicada devido às peculiaridades de nosso aprendiz em questão, mas está sendo resolvida de forma divertida. Para ser mais exato em termos de título o ponto não é evitar ensinar, mas fazer apenas o mínimo necessário. Mas vamos aos fatos.

O Jogo

King of Tokyo (O Rei de Tóquio) é um jogo de tabuleiro que explora essa famosa fascinação japonesa por monstros gigantes destruindo sua capital. O foco é na diversão e não o terror. Os jogadores competem entre si para descobrir que monstro destruirá a cidade japonesa tornando-se o Rei de Tóquio (e vencedor do jogo). Os monstros são variados, com uma certa puxada para o cômico, como a cara de enfado do Alienoid ou os absurdo monstros da expansão de Halloween. Existe uma tabela simples e funcional para controlar os pontos de vida e de vitória de cada monstro,o que dispensa a existência de um placar geral e uma série de cartas de poderes que tornam os monstros mais personalizáveis, aumentando a rejogabilidade. A solução do problema encarado nessa história também é um tributo à robustez do sistema de jogo. Se o jogo não t fosse tão bem projetado a solução seria muito mais difícil.

O problema

O jogo é algo casual e divertido, mas eu tinha um problema: Como jogar com meu filho que tem apenas 4 anos se a idade mínima recomendada é de 8 anos? Isso mesmo, só metade da idade recomendada. Para ilustrar a importância do fator idade: as idades recomendadas geralmente são definidas com base no grau de complexidade das regras e no tempo necessário de partida. Regras complexas demais tornam a experiência cansativa para um jogador novinho e se o tempo de jogo estiver além da janela de concentração do jogador a experiência pode se tornar ruim um saco. Como diria Csikszentmihalyi, dificuldade de menos torna a experiência sem graça e dificuldade demais pode levar a ansiedade ou simples desistência. E, no presente caso, as chances das regras serem complexas demais para o usuário eram altas.

Por experiência própria já observei que até a fase de explicação das regras já pode ser negativa para o usuário, especialmente nesse caso de regras além do perfil dele. Se o chunk (ou tolete) de informação for maior do que o usuário pode absorver em sua memória ele vai achar as regras chatas (diminuindo a motivaçã0), perder informações que vão fazer falta mais à frente e colocar toda a experiência de jogo em risco. Eventualmente até assumindo um comportamento tóxico que atrapalha a experiência de jogo de todos os participantes. Qualquer um que já jogou em rede viu isso acontecer e brasileiros já acumularam uma certa má fama nesse ponto. Ainda assim, a fase da explicação das regras é fundamental e eu tinha algumas questões para responder.

  • Como explicar as regras para alguém novo demais?
  • Como oferecer uma experiência divertida caso não entenda totalmente o que está acontecendo?
  • Como jogar um jogo que demanda leitura para alguém que não foi alfabetizado?
  • Enfim, como ele seria capaz de aprender se o meu modo de ensinar poderia ser mais um problema que uma solução?

A experiência

O que experimentei foi agir principalmente como um facilitador do que necessariamente outro jogador, um juiz ou um professor. Expliquei o que ele poderia entender, mas o mínimo para evitar encher a paciência dele. Ou seja, partimos para o jogo em si tão logo quanto possível, aceitando que na experiência inicial ele teria um grau de liberdade limitado que poderia ser aumentado com o decorrer do jogo. Eu explicava o que ele devia fazer e ele ia obedecendo. À cada rolagem de dados eu explicava os resultados de cada ação com uma história dentro do jogo (combate entre monstros e estragos na cidade) criando um contexto que em que as regras fizessem sentido para ele. Em muitos casos relembrei os anos como jogador/ mestre de RPG e atuava um pouco. Seguindo nessa linha, depois de algum tempo passei a perguntar como ele descreveria as ações de seu monstro. O objetivo de mostrar um contexto onde as regras se conectam com a história ou vincular determinado momento ou a uma emoção é criar “raízes” dentro da memória do usuário, facilitando o entendimento e a memorização.

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O resultado

Obviamente ele não aprendeu em apenas uma partida, esse é um processo que ainda está rolando, mas seu aprendizado aumenta a cada sessão e a experiência  é divertida para ele. Ainda que de vez em quando faça um furdunço na rolagem de dados. Logo ele começou a inventar suas próprias descrições do que estava acontecendo e a necessidade de facilitação começa a diminuir. Ele vem aprendendo mais por observação de outros jogadores e meu retorno sobre as consequências de suas jogadas do que por instrução direta. Agora ele já está entendendo elementos da rolagem de dados e reconhecendo algumas cartas e aplicando seus efeitos apenas pelos desenhos, lembrando de experiências anteriores ou supondo seu efeito pela desenho da carta. Nesse aspecto, facilita muito o fato do jogo se basear mais em ícones que texto. O jogo não é apenas atrativo, ele também é visualmente eficaz, um ponto essencial em qualquer interface seja para um videogame, simulador, infografia ou tabuleiro. Em alguns momentos o infante até já chegou a me questionar ou corrigir caso eu esquecesse algo. E já está entendendo a dinâmica do jogo, percebendo quem tem mais chance de ganhar ou perder e adaptando suas táticas, como atacando quem está mais forte. O principal fator é que ele ficou motivado e está sendo mais capaz do que eu esperaria.

Como pai, eu estou superando minha tendência partenalista de fazer coisas por ele e deixando que ele aprenda a partir das próprias decisões e experiências. A obsessão por controle é um erro comum entre professores, especialmente em jogos. O controle excessivo é muito danoso para a experiência de jogar e para a aprendizagem em si, vale mais um erro divertido dentro do jogo, ensina muito mais.

Em termos de teoria de aprendizagem a experiência me lembra a idéia de desenvolvimento proximal do Vygotsky que, a grosso modo, significa não focar no que o estudante sabe mas no que ele tem potencial de aprender dentro de um contexto social. Venho tentando sempre deixar a informação perto do nível dele, mas um pouquinho além para que ele seja obrigado a aprender algo para conseguir fazer o que deseja. Seria dar o espaço necessário para que a criança resolva por si mesma. É um acerto que parece simples, mas demanda um bom conhecimento de quem está aprendendo e um bom grau de sensibilidade e improvisação do facilitador. A diversão é um fio de navalha entre a chatice e a ansiedade sobre a qual o facilitador deve guiar o jogador.

Conclusão

imagePessoalmente foi um exercício de facilitação e aplicação das teorias de aprendizagem que pode ser muito útil para o futuro. Um teste de conceito do que seria a facilitação ideal para ensinar alguém muito jovem a jogar. Confirmando que aquele clichê do design instrucional que diz “ao final desta aula espera-se que o aluno seja capaz de blábláblá” pode ser uma exigência problemática.

Em termos de prioridade o primordial é a diversão, mesmo que seja uma diversão cansativa e que demande esforço, como proposto por Papert em Hard Fun (diversão trabalhosa). Talvez aceitar níveis menores de aprendizagem ao final de uma aula, mas definir um processo de fixação e domínio de um conteúdo seja algo muito mais interessante. O que também me reforça a impressão que é inviável achar que vai ocorrer aprendizado que preste com apenas uma sessão.

A relação custo x benefício que, nesse caso, pode ser entendida como o esforço para se aprender as regras e jogar frente ao benefício de aprender com a experiência simplesmente não compensa com uma sessão de jogo só. A memorização provavelmente será mínima e a aprendizagem muito superficial. Acredito que jogos sejam um caminho para se obter domínio de um conteúdo e ficar mais amigável a ele. E acho que atualmente domínio é algo que vale muito mais que memorização, para essa já temos os computadores.

Obviamente, ele está longe de dominar o jogo, até porque ele ainda tem uma das competências necessárias, a capacidade plena de ler. E tenho minhas razões para não apressar a alfabetização dele. O que é compensado pelo pai facilitador. Mas, ainda assim, para ele é um jogo divertido e todo o esforço cognitivo necessário para ele vale a pena, que é exatamente o que entendemos como motivação. Sem deixar de observar que, do alto de seus 4 anos, ele já ganhou partidas, mais de uma. E, no final das contas, como pai, se meu filho está feliz o que mais importa?

Uma controvérsia que rendeu muito pano pra manga na eleição para prefeito em 2016 foi a questão da redução de velocidade nas marginais de São Paulo como forma de melhorar o trânsito. A medida, já adotada pelo então prefeito Haddad, tornou-se uma promessa de campanha para Dória, que acenava com a revogação da redução de velocidade.

Como percebemos o trânsito

Para a maioria dos motoristas a redução de velocidade para 50km/h foi vista como um insulto. Como se o trânsito normal já não fosse ruim o suficiente. Ainda por cima o número de radares aumentou em 405%, uma combinação que levou o número de multas para a estratosfera e o humor dos motoristas para o centro o centro da terra. A medida foi tão impopular que a OAB acionou a justiça contra o prefeito, que já havia arranjado um boa briga ao tirar espaço dos carros para ciclovias. O argumento seguia a lógica abaixo.

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fonte: G1

Uma teoria discorda do senso comum

Porém, vários estudos observam uma realidade que não bate com essa idéia que, diga-se de passagem, parecia bem verossímil. A idéia de que a redução de velocidade máxima na verdade melhora a fluidez do trânsito fazendo com que os veículos andem mais rápido. Primeiramente é preciso mudar o foco da velocidade máxima para a velocidade que realmente vai fazer diferença, a média. No caso de São Paulo essa velocidade é de horríveis 6,9 km/h no final da tarde e comparando com os anos anteriores, a tendência é de queda. Pelo que entendi a idéia é que o que provoca a redução de velocidade em vias rápidas é que existem uma preferência maior por essas vias, são mais rápidas, e a diferença de velocidade entre diversos veículos somada à uma eventual inaptidão de alguns motoristas criaria gargalos de trânsito que logo se tornam engarrafamentos e acabam reduzindo a velocidade média para todo mundo. Em outro estudo a mudança de velocidade simplesmente não faz diferença na capacidade da via, não prejudicando o trânsito, mas reduzindo a gravidade de acidentes.

E isso sem contar que velocidade menores reduzem a gravidade de acidentes e que velocidades mais baixas também reduzem a probabilidade de acidentes ocorrerem, o tempo de reação dos motoristas aumenta. Qualquer um que já andou em vias expressas e muito cheias sabe que é razoavelmente fácil ocorrer um engavetamento envolvendo vários veículos e atrapalhando a vida de todo mundo.

Ainda assim, é difícil para o cidadão comum aceitar que um ganho sutil como o aumento de velocidade média ou um provável como a redução de acidentes (todo mundo acha que nunca vai sofrer um acidente) vale a pena. O ganho aparenta como algo abstrato frente ao incômodo real provocado pelo engarrafamento nosso de cada dia. Tanto que o novo prefeito de São Paulo, parece ter perdido seu ardor em alterar as regras.

A simulação

Pessoalmente, o argumento final foi ver uma simulação de trânsito interativa desenvolvida por esses alemães e seu cientificismo maravilhoso. É possível se alterar diversas variáveis, como o número de caminhões ou a quantidade de veículos. Apesar de não ser escrita em português, os controles são razoavelmente intuitivos e fica fácil de entender o funcionamento permitindo entender que o trânsito é resultado de uma complexa equação que têm diversas variáveis, como o número de veículos, o tipo, o desenho da pista, a velocidade máxima, a média e outros fatores. É uma forma simples de descrever um sistema complexo e nos mostra como respostas simples e senso comum podem limitar nossa percepção. Tudo bem que, como mostra Cathy O’Neal, a ciência não é neutra e a matemática também não, mas ainda é um ponto válido para começar uma reflexão.

Um paralelo com o passado

De qualquer modo a controvérsia era esperada e a resistência algo previsível, quando os primeiros radares surgiram também se iniciou a  Campanha Paz no Trânsito, envolvendo o GDF (o governo Cristovam Buarque), imprensa e sociedade, que implementou algumas políticas consideradas controversas na época:

  • com os radares, chamados de “pardais” pelos candangos, veio o controle de velocidade;
  • o respeito à faixa de pedestres, com preferência para os pedestres;
  • capacetes obrigatórios para motociclistas
  • o uso obrigatório do cinto de segurança e etc.
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Uns dizem que a indútria de multas é mito, outros que existe mesmo. Fonte: FlatOut.

No início, esse tsunami de mudanças foi considerado impensável para uma cidade onde todo mundo considerava 60km/h uma velocidade perfeitamente razoável, para o estacionamento. Muitos achavam que as leis não pegariam. Me lembro de gente indignada com a idéia de parar numa faixa para que pedestres atravessassem a rua em vários momentos eu fui um desses. Mas com disposição do governador e da polícia em multar uns bons milhares de motoristas por dia a população começou a ver vantagens e a aceitar melhor as mudanças. Apesar dos resmungos eventuais contra a indústria de multas que, em alguns casos acredito que exista mesmo, a cidade teve um trânsito um pouco mais civilizado e uma sensível redução no número de mortes por acidente. O que foi providencial  se considerarmos o grande aumento no número de carros e motoristas que veio com a primeira década do século XXI. De certa forma as leis mais rígidas tornaram o trânsito do Distrito Federal um pouco mais civilizado quando comparado com o de outras capitais brasileiras. E permitiu uma aplicação mais tranquilas em casos posteriores, como a implementação da lei seca para motoristas, que também reduziu o número de mortes no trânsito. O resultado de determinação das autoridades que foi assumido pelas sociedade como vantajoso com o passar do tempo. Nem sempre fazer o certo é vai ter fazer ser popular.

Conclusão

Mudanças em políticas públicas invariavelmente vão desagradar alguém e, em alguns casos, por “alguém” entenda muita gente. Ainda assim, como diria Milton Friedman, políticas públicas devem ser julgadas por seus resultados e não por suas intenções e em certos casos é preciso observar se os resultados compensa. Talvez a redução de velocidade máxima não seja isso tudo o que especialistas e alemães sugerem, mas é preciso dar tempo para que os resultados apareçam. O desagrado de hoje pode resultar em um mundo menos perigoso amanhã.

E no dia 13/10/16 atendendo a um pedido do Hospital da Criança José de Alencar, levei o jogo de Cerrado para fazer parte de um evento com jogos de tabuleiro para os pacientes, acompanhantes, voluntários da Abrace e funcionários do Hospital.Em essência, fazemos como trabalho o que a maioria das pessoas faz como diversão, nós jogamos. E novamente tive o apoio essencial do Luis Cláudio da Orgutal que, além de ser um voluntário, faz a coisa funcionar junto comigo e a Suely, coordenadora de voluntariado do hospital. Ele trouxe e montou as mesas, sugeriu outros voluntários e trouxe a maioria dos jogos que foram empregados no dia. Além da equipe do hospital que nos ajudou e até ofereceu um lanche e uma razoável quantidade de água, que é essencial para quem mora numa cidade com pouca umidade e vai passar uma tarde inteira falando.

Como não é a primeira vez que participo tive o prazer de ver o processo “correr sobre os trilhos” sem muitos problemas. E é recompensador ver que a idéia está funcionando. Como em outras vezes os voluntários novatos se adaptaram rapidamente: chegamos, montamos as mesas, higienizamos os jogos e cada um ficou responsável por  apresentar um jogo aos visitantes, ensinar as regras e jogar com eles. Como o público do hospital é bem variado, flexibilidade e jogo de cintura são essenciais. Simplesmente não dá para planejar ou escolher quem vai ser seu parceiro. Esse é um daqueles eventos um tanto caóticos em que gerência conta mais do que planejamento meticuloso.

Para descrever a variedade: poderíamos ter a nossa frente desde uma criança de 3 anos até a sua mãe com seus 40 e poucos anos, em um certo momento poderíamos jogar com uma pessoal ou com o máximo que o jogo permitia, com alguém esperando a sua vez. Assim, o processo precisa ser simples para ser robusto o suficiente para dar conta do recado.

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A equipe

O lado bom é que iniciativa é algo que não falta entre os voluntários. Muitas vezes a criança que quer jogar está muito abaixo da faixa etária para o qual determinado jogo foi projetado. E nesse ponto é função do facilitador compensar as limitações do jogador e manter a experiência interessante para todos. É uma experiência intensa para os voluntários e mesmo para mim, que já faço isso há algum tempo, especialmente devido à disposição incansável das crianças. Pessoalmente ,achei mais intenso que no ano anterior e isso considerando que eram 9 voluntários trabalhando de forma praticamente ininterrupta. Algumas crianças jogavam, iam para suas consultas e depois voltavam com vontade de continuar.  Tanto que uma das voluntárias, que trabalha com a Ludoteca BCG e também é experiente em apresentar jogos e explicar regras para adultos considerou essa experiência muito mais complexa e exigente do que a da loja.

Em termos de tipo de jogo, esse é o reino dos jogos casuais, com regras simples e tempos de jogo curto, no máximo uns 30 minutos. As crianças ficam bem estimuladas pela variedade de jogos que nunca viram. Jenga continuou o seu sucesso, atendendo todas as idades. Loopin Chewie é algo que pode ser explicado em uns 30 segundos e como Pass the pigs está quase no limiar entre jogo e brinquedo.

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O trabalho

No meu caso fiquei com o meu jogo de Cerrado, que dessa vez atraiu as crianças mais velhas e me deu oportunidade de usar o jogo com uma complexidade maior do que geralmente uso nos sábados. Crianças dos 10 anos em diante podem entender as regras completas, ainda que o ideal sejam 12 anos. Mas, ainda assim, elas já conseguem criar estratégias variadas dentro da partida e acabam encontrando as diversas situações de aprendizagem que foram projetadas para o jogo. Tanto que uma das partidas teve um excelente controle de áreas degradadas. Do tipo que eu não via há tempos. E isso considerando que eu simplifiquei a explicação inicial das regras, já que a rotatividade de jogadores é alta em um evento como esse e uma explicação de regras muito longa pode deixá-los desmotivados. Sempre há outros jogos disponíveis e eles querem jogar todos. Como diz o Aldricht em The Complete Guide of Simulations & Serious Games  a explicação das regras é a parte mais tradicional de um jogo, em termos de ensino, mas é essencial para fazer toda a experiência funcionar.

Avaliação e o futuro.

No geral, o nosso modelo de trabalho está razoavelmente maduro, funciona bem, demanda pouco esforço para montar e desmontar e os participantes saem satisfeitos. Em termos de melhorias talvez possa incluir mais voluntários para permitir um certo grau de revezamento e centrar nos jogos de maior sucesso, com uma preferência por jogos que envolvam mais jogadores. A melhor forma de se interessar por um jogo é ver ele sendo jogado e a experiência fica bem mais interessante com várias pessoas. Talvez um meio de avaliação no futuro, mas é algo complicado já que boa parte do nosso público não sabe lidar com questionários.

E uma das minhas alegrias foi ver que esse pequeno projeto pessoal foi a semente para outras coisas legais. Como árvores e também a parceria entre a Orgutal e a Abrace, que vão levar o uso de jogos de tabuleiro e o voluntariado a um novo patamar. Não sou mais um cara sozinho com uma sacola de jogos, agora somos muitos. Como diria Sócrates em “O Banquete”: amor não é o que está em você, mas o que for além de você.

Conclusão

Foi um evento simples, mas divertido, que por algumas horas colocou os pacientes em situações variadas nas quais a doença que os levou ao hospital simplesmente não importava. Pessoalmente é uma satisfação ver algo imaginado se tornar real. Não vamos curar ninguém, mas já ficamos satisfeitos deixar uma boa lembrança.

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fonte: sites.psu.edu/siowfa15

Um consenso que beira o clichê é que a educação brasileira é muito ruim e precisa ser mudada. Nesse aspecto, 2016 foi uma no pródigo idéias, como a proposta de reforma do ensino médio comentada por aqui em outro artigo.  Para resumir a minha opinião as medidas são ousadas e não vi muito esforço para explicá-las de forma mais embasada.

Por outro lado, existem diversas medidas simples, com diversas evidências favoráveis que poderiam melhorar o rendimento de nossos estudantes. Uma delas está ligada ao horário das aulas e, principalmente, ao sono.

Se no caso das crianças acordar cedo é comum e elas sejam mais ativas no período da manhã. Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono, a situação muda quando chega a adolescência devido a uma necessidade de sono diferente, tanto que ele recomenda que o ensino médio seja vespertino. Assim, mesmo no Brasil os estudantes não estão dormindo o suficiente. Com a devida ressalva que o objetivo deste artigo não é criticar quem acorda cedo, mas mostrar que o que funcionada em determinada fase da vida pode não funcionar em todas. A grande questão não é que horas as pessoas acordam, mas o quanto elas dormiram.

Dormimos pouco e mal

Pesquisas dos últimos anos vêm observando que os adolescentes tem um ritmo de sono diferente dos adultos e o problema é que as escolas, planejadas por adultos, seguem o ritmo de sono dos adultos e não de seus alunos adolescentes. Usando dados do Departamento de Educação Americano, o Centro de Controle de Doenças fez um estudo grande, envolvendo mais de 30.000 estudantes, onde observaram que a maioria das escolas começava antes de 8h da manhã. Sendo que a Associação Americana de Pediatria não recomenda que os estudos comecem antes de 8h30 para garantir que os alunos tenham dormido o suficiente. Sob esse estado privação ou, déficit de sono praticamente constante, considera-se que os estudantes tem mais chance de:

  • ter sobrepeso;
  • fazer menos atividade física;
  • sofrer depressão e/ou ansiedade;
  • ter resultado acadêmico inferior (perceba que só esse sintoma já deveria ser razão para a escola começar mais tarde);
  • sem contar o riscos de ferimentos, que aumenta em pessoas sob privação de sono.

Segundo o estudo do CDC, os estudantes adolescentes precisam de algo em torno de 8h30 até 9h30 de sono diário para evitar esses sintomas. Talvez alguém se pergunte por que eles simplesmente não dormem mais cedo. Mas o problema é também está se observando que adolescentes realmente tem problemas para dormir cedo, com o agravante do uso constante de celulares e videogames à noite.

Segundo Wei Shin-Lai da Universidade Estadual da Pensilvânia os estudantes simplesmente não dormem o suficiente e sugere que aproximadamente 15 a 25% dos estudantes entre 15 e 25 anos são definidos pelos estudiosos do sono como “corujas”, vivendo em ciclos de 26 horas em vez das usuais 24 de todo mundo. Assim, uma “coruja” que acorda as 8 horas provavelmente vai dormir por volta das 2h da madrugada em vez de meia-noite.

A quantidade ideal de sono vai mudar de acordo com a pessoa, mudando de acordo com a idade e também com o sexo. Lai afirma que mulheres que já tiveram seu estirão de crescimento dentro os 10 ou 12 anos estarão bem com algo por volta de 7 ou 8h de sono. Enquanto homens, que costumam a ter um estirão de crescimento por volta dos 16  ou 17 anos vão precisar de algo em torno de 9 horas de sono.  E o tempo para se recuperar de uma noite sem dormir para estudar seja algo em torno de 3 dias. Pensando assim, talvez os adolescentes não sejam tão vagabundos quanto se gosta de acusar.

Imagino que alguém (caso o leitor seja esse alguém) deve estar se lembrando que acordava lá pelas 5 da manhã, ralava na escola, no trabalho ou em ambos e hoje em dia têm seu emprego e sua vida. Para esse alguém eu pergunto: E se esse sofrimento de acordar cedo, na verdade, tenha piorado sua desempenho de forma que hoje você é menos do que poderia ter sido? A idéia pode soar deprimente mas entender isso é importante para garantir um futuro melhor para as próximas gerações.

Para ilustrar como isso é algo comum, nos EUA, quase 40% dos estudantes adolescentes do sexo masculino declaram dormir menos de 7 horas por noite. Se jogarmos a situação para o caso brasileiro a situação provavelmente seria ainda pior, porque a maioria das escolas começa às 7h e os estudantes certamente devem acordar ainda mais cedo, devido ao tempo perdido no trânsito.

Um mapa das melhores horas para estudo

Como comentado no blog Psicóloga+Doutoranda que me inspirou para esse texto, estudar já é um processo muito exigente em termos de concentração e energia, imagine o prejuízo resultante de fazer isso sem ter dormido o suficiente. Através da infografia abaixo ela demonstra a importância do sono e os mecanismos biológicos que vão impactar na aprendizagem.

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Conclusão: estudantes deveriam dormir mais e ir para a escola um pouco mais tarde

Enfim, novamente acredito que temos um caso de pesquisas chatas e seus resultados que contrariam o senso comum. Pessoalmente soa um tanto insano e assustador pensar que mantemos gente para fazer uma atividade complexa e importante para a sociedade sob condições desfavoráveis simplesmente porque “sempre foi assim”. Na verdade, esse padrão “8h ás 18h” de todo mundo acordando no mesmo horário produzindo do mesmo jeito vem sendo cada vez mais questionado. Relembrando, não é apenas sobre que horas você acorda, a verdadeira questão é se dormiu o suficiente.

Uma mudança nos horários dos estudantes talvez não interesse nem aos pais ou escolas devido ao impacto inicial na logística. Mas creio que seria um excelente ponto para experimentos e comparações para conferir se a hipótese de mudança no horário dos estudantes pode trazer uma melhoria significativa no desempenho. No final das contas é um cálculo de custo x benefício que pode significar uma melhora significativa no desempenho e na qualidade de vida de nossos estudantes.

(Nota do tradutor) Antes de mais nada, FMA significa Filipino Martial Arts (Artes Marciais Filipinas) dentre as quais podemos encontrar o Arnis Kali, Pekiti Tirsia, Kali Silat e outras com origem nas Filipinas. Uma de suas peculiaridades é o combate com armas brancas, inclusive para iniciantes.

Logo abaixo segue mais uma das minhas traduções descuidadas. No caso um interessante artigo de Jackie Bradbury: praticante de artes marciais, professora, mãe e autora do blog The Stick Chick. As fotos e ilustrações vieram do blog da autora.

——–

Eu vou a vários seminários e treino com um monte de gente, não apenas na região de Dallas-Fort Worth, mas em todo Texas e nos Estados Unidos. Não é incomum para mim ser a única mulher na sala quando estou treinando. Mesmo em seminários pode se ver apenas uma ou duas outras mulheres em uma multidão de homens.

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Evidência A.

Isso não é algo exatamente incomum no mundo das artes marciais: mulheres serem a minoria no grupo. É algo que você tem que se acostumar quando você é uma mulher que gosta de praticar a violência como um hobby. Embora seja uma dessas, eu com certeza gostaria que pudéssemos ter mais mulheres para as artes marciais filipinas, porque é tão… Assim, feito para nós, sabe?
Aqui estão algumas razões:

 

As armas são um grande equalizador

Na realidade, em uma situação de autodefesa, 99% das pessoas vai preferir estar armada a desarmada. Uma arma de qualquer espécie é uma grande vantagem contra alguém desarmado. E isso é especialmente verdadeiro para as mulheres em situação de autodefesa contra um homem.
Eu já estou ouvindo alguns de vocês perguntando: “Quem anda por aí armado com um pedaço de pau?” (e talvez um riso ou dois).

 

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Não me faça ir até aí!

O bastão é um substituto para outra coisa . Pode ser um guarda-chuva, uma bengala, uma mochila ou bolsa, uma caneta, uma faca, um facão, uma barra de ferro … qualquer ferramenta, realmente.
A nossa metodologia de treinamento se presta muito bem para armas improvisadas,e a maioria de nós anda por aí com algo, qualquer coisa que pode ser usada na hora de um aperto!

 

A força não é o principal fator

Ser forte é, claro, sempre uma vantagem em combates ou em situações de defesa pessoal. O FMA não é diferente. Mas ser forte não é, em si, o principal fator para ser bom no FMA Timing, velocidade e precisão (mira) são. Força é útil, é claro, mas o tempo, velocidade e precisão são as coisas que as mulheres podem desenvolver tão bem quanto os homens.
Assim, no FMA  as coisas ocorrem num nível mais mais igual para as mulheres.

 

Ser mais baixo não é necessariamente um problema

Todos concordam que, se outras coisa forem iguais, ser alto e ter um longo alcance é definitivamente uma vantagem quando se trata de situações violentas. Nenhuma discussão nesse ponto.
No entanto, no FMA aprendemos a trabalhar com o que nos é dado (e a forçar o adversário a nos da o que queremos). Isso significa que nós aprendemos quais alvos são bons para acertar, não importa quem estamos enfrentando e como nos é apresentado. Eu tenho um aaltura de cerca de um metro e cinquenta e oito centímetros. Quando treino geralmente sou um dos adultos mais baixos no local. Assim, em vez de tentar acertar a cabeça de pessoas altas, tenho aprendido a tomar o braço (mão, punho, cotovelo, sob o bíceps), o tronco (alvos demais nessa parte para listar aqui), o pescoço, parte baixa do queixo, parte interna da coxa e as pernas como alvos contra pessoas mais altas. Eu entro dentro na guarda da pessoa e então …
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É bastante impressionante .
Espero que mais mulheres escolham o FMA como uma arte marcial para praticar. Porque, como você pode ver, eu acho que é bem adequado para a artista marcial feminina média.O que você pensa sobre o FMA para as mulheres? Ou que outras artes marciais são legais para as mulheres e por quê? Eu gostaria de ouvir o que você pensa!

 

(Outra Nota do tradutor) Lembro que essa última pergunta foi da autora, mas sinta-se à vontade para comentar por aqui ou, se preferir e souber inglês, também pode falar direto com a autora na parte de comentários do artigo original.

Para variar, temos uma renca de matérias sobre a situação da Educação no país ao sair o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2016 e a proposta de mudança do Ensino Médio numa mesma semana. Para entender o que é o Ideb eu recomendo esse artigo.  Esse índice é considerado tão importante porque define muito de nosso futuro: bons alunos na educação básica significam bons universitários e bons profissionais nas décadas à frente. É uma solução demorada, mas é sustentada. O que pode ser observando neste ótimo artigo que descreve como os investimentos nos primeiros anos de vida fazem toda a diferença para indivíduos e sociedade. Ao mesmo tempo, os problemas de formação nessa fase certamente vão impactar até na vida adulta.

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Escola, esse local emocionante – autor: Bill Waterson

A metade cheia (ou não tão vazia) do copo

Apesar da maioria considerar os dados desanimadores é possível ver um detalhado contraponto à essa tendência no blog  Avaliação Educacional, a.k.a. Blog do Freitas  que levantou alguns dados interessantes para colocar em perspectiva a situação do nosso sistema de ensino. Ele mostra que, apesar de estar abaixo da meta, a situação pode não ser tão ruim assim. Dentre as razões do autor vou ressaltar:

  1. O Brasil vem melhorando seu desempenho sistemática e consistentemente no ensino fundamental desde 2003. Isso é muito importante, pois trata-se da base da formação. Como podemos ter um ensino médio avançado, sem uma educação fundamental que dê base? O Brasil é o país que mais cresceu nos últimos anos no ensino de matemática, segundo a OCDE.
  2. Neste mesmo ensino fundamental, nas séries iniciais, cerca de 70% das escolas melhoraram seu desempenho na atual edição do Ideb, quando comparamos com o Ideb anterior de 2013, onde houve 58% de melhora: um aumento de 12% em escolas que melhoraram.
  3. Ainda neste mesmo ensino fundamental das séries iniciais, o próprio Ideb das escolas públicas em média aumentou. E no ensino fundamental das séries finais também. Não há queda no Ideb do ensino fundamental das escolas públicas.
  4. Embora o ensino fundamental e o médio sejam uma responsabilidade dos Estados e não apenas do governo federal, dos 27 estados brasileiros, 20 melhoraram o Ideb do ensino médio em relação a 2013.
  5. O Ideb de 2015 é igual ou maior do que o Ideb de 2013 em todos os níveis de ensino  das escolas públicas (fundamental e médio).
  6. No ensino médio, apesar de cairmos em matemática de 270 pontos em 2013 para 267 em 2015 aumentamos a média em português de 264 pontos para 267. Pode-se dizer que este é o único dado desabonador: a redução da média em matemática no ensino médio. Mas ele não anula os outros.

Na minha opinião o item 4, não é exatamente positivo, afinal a idéia é que todas as escolas melhorem, inclusive as particulares. Mas, a luz desses argumentos do Freitas, podemos até considerar que a educação brasileira, por pior que esteja, está melhorando. Ok, mas ficam várias perguntas, como:

  • Está  ocorrendo na velocidade desejada?
  • Essa melhoria é sustentável?
  • Estamos na direção certa?

A metade complicada

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fonte: Apostila do Prof. Yoshida

As respostas as perguntas anteriores são complicadas porque os estudos nessa área são difíceis. Estamos falando de milhões de alunos com milhares de variáveis afetando seu desempenho e, em muitos casos, leva um bom tempo para se avaliar os impactos. Avaliações na forma de testes padronizados como ENEM, PISA etc. são importantes ferramentas de pesquisa e comparação mas, são instrumentos limitados e podem não detectar várias coisas importantes que estão acontecendo nas escolas. Basear as políticas públicas com zelo excessivo nesse tipo instrumento, ignorando suas limitações é algo temerário (os trocadilhos ficam por conta do leitor).

Em outro texto comentei sobre casos documentados de idéias que pareciam boas no início e se mostraram ruins no longo prazo. Só essa possibilidade já é um tremendo complicador. Mesmo que novas políticas sejam implementadas corretamente, o que, por si só, é um trabalho longe do trivial, os indícios de seu impacto não são fáceis de se observar e mensurar. Nesse ponto, o Blog do Freitas faz um saudável contraponto com seu ceticismo em relação à provas ao observar que existem uma série de fatores que não são captáveis por provas. Entrando um pouco no aspecto pesquisa, acredito que a pesquisa quantitativa, como a que é feita por testes padronizados é ótima para mensurar, observar algo que o pesquisador já acreditava existir de antemão. Já a pesquisa qualitativa, aquela que você faz através de entrevistas, filmagens, questões discursivas, redações e etc. é exploratória. Ela serve para você descobrir coisas que não o pesquisador não necessariamente sabia que estavam acontecendo. Em suma, são métodos complementares.

Portanto, acredito que políticas públicas de educação não devem se basear apenas em resultados imediatos de avaliação sob o risco de se perder algo importante e não aparente que pode fazer toda a diferença no objetivo principal da educação: formar cidadão melhores. Educação é um meio e não um fim em si mesmo. E temos o péssimo hábito de passar a considerar testes padronizados como um fim em si mesmo. Qualquer um que já viu um cursinho para vestibular, ENEM, concurso ou o-teste-da-vez pode observar isso.

Sim, os resultados das escolas do Ceará (melhores notas do Ideb) são lindos, mas sem pesquisas aprofundadas, e demoradas, não saberemos exatamente o que provocou esses resultados. E, principalmente, precisamos saber se é realmente possível replicar o trabalho deles em outros lugares. Apesar das pessoas acharem que a escola é uma indústria, ela não é. O que aconteceu em um ambiente escolar não necessariamente pode ser replicado em outro. A nota do Ideb é só um indicador, não descreve tudo que está acontecendo. Há muitos fatores internos e externos que impactam o desempenho escolar e, em alguns casos, mais até que a própria escola.

O navio

O sistema educacional de um país continental é algo como um transatlântico. Um mudança de rota exige o movimento de mecanismos imensos, a logística dessa máquina é complicada e tudo tem que ser bem planejado. Enfim, algo desse tamanho não manobra rápido e rotas mal calculadas podem ser desastrosas. Nesse aspecto, o que acho assustador é que o governo está me lembrando o capitão Schettino e nossa educação o Costa Concórdia.

Em 2016 o governo entrou com uma medida provisória propondo mudanças importante no ensino médio. O próprio Freitas concorda que o modelo atual não é exatamente uma maravilha. É fato que mudanças são necessárias, como observado aqui . Eu mesmo simpatizo com a idéia de se diferenciar as matérias de acordo com os interesses pessoais ou vocação do aluno. Ao contrário de algumas críticas histéricas (redes sociais são ótimas para propagar histeria) que dizem que certas matérias vão acabar. Elas só vão deixar de ser obrigatórias, o que pode até melhorar a qualidades das turmas, quem estiver lá por escolha e não obrigação. Porém, mesmo que isso funcione em outros países, alguém já testou isso por aqui? Pelo menos alguém já estudou para ver o que os envolvidos (professores, pais e estudantes) pensam da idéia? Sobre a consulta aos alunos o Porvir apresentou uma ótima idéia e também uma bela infografia.

Outro ponto, como dizem os americanos*: Amadores discutem táticas, mas profissionais estudam logística. Mesmo que as mudanças propostas pelo MEC sejam simplesmente geniais ficam várias pontas soltas a serem amarradas mais à frente, a lista abaixo está longe de ser completa:

  • Como será a transição para esse novo modelo?
  • Existem salas e materiais suficientes? Caso negativo, como serão feitos e como serão implantados?
  • Como ficarão os professores e suas carreiras? Haverá demissões? Contratações?
  • Como serão treinados os professores para essa nova realidade? Especialmente os que já estão trabalhando
  • Como os conteúdos serão organizados por escola? Vão existir escolas para quem tem preferência por exatas e outra para humanas ou fica todo mundo junto?
  • As demandas do mercado de trabalho nos últimos anos apontam para profissionais capazes de trabalhar em grupo e com diferentes profissões. Como isso será trabalhado nas escolas?
  • Como vão ficar os assuntos transdisciplinares, como educação ambiental?
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Eu aposto que todo mundo achou que colocar o Titanic em velocidade máxima era uma excelente idéia. Antes dele bater, claro.

Ao mesmo tempo eu não vi soluções para alguns problemas de longa data:

Para adicionar mais pimenta na reflexão, o Porvir (via Mercado Popular) propôs algumas idéia simples que teriam grande impacto.

Eu torço para que tudo isso e muito mais já tenha sido cogitado e planejado, mas é difícil não ser cético com uma mudança tão súbita. Enfim, essas preocupações são essenciais. Afinal, ainda que o sistema atual seja ruim, nada é tão ruim que não possa piorar e, como agravante, eventuais erros nessas reformas vão ter impactos imensos e prolongados.

*”Amateurs talk about tactics, but professionals study logistics.” frase dita em 1980 pelo General Robert H. Barrow, então comandante do USMC.

Atualização

Wagner Victer, secretário de educação do Rio de Janeiro em 2016, escreveu um artigo sobre os impactos da MP. Onde ele descreve de forma excelente alguns dos complexos desafios logísticos que serão trazidos pela MP do ensino médio e os novos custos consequentes à essa mudança de rota. Ilustrando muito bem a complexidade da mudança de rota no “navio” citado acima.

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E em 2016 chegamos à segunda temporada da série Narcos, sobre o narcotráfico nas américas. Essa série americana com co-produção colombiana e brasileira  quebrou algumas regras padrão da TV, como o uso de narrador. Resultando numa visão sui generis da América Latina, pelo menos para a TV.

Uma série mais americana que norte-americana

Dentre os muitos elementos que gosto na série Narcos  está no fato de ser  uma combinação entre o apuro técnico da produção americana e a direção do brasileiro José Padilha (em alguns episódios, mas ele também é produtor) combinada em uma história colombiana. O resultado é uma história latino-americana como só poderia ser contada com (vários) dedos de gente daqui.

O filme descreve as diversas maquinações políticas e econômicas em torno do narcotráfico e como ela envolve pessoas  que lucram ou são destruídas no processo. Avançando além dos clichês de sempre, da visão paternalista, condoída ou pontuada por desprezo que eventualmente vemos quando se retrata a América do Sul. É claro que ainda existe pobreza, corrupção e desigualdade de renda, mas o pobres não são apenas vítimas e os ricos não são apenas elitistas fúteis. Somos apresentados como mais que um estereótipo infantilizado. Os latino americanos são mostrados como algo mais que sotaque carregado, barraco ou roupas de gosto duvidoso.  As personagens, sejam colombianas, chilenas, brasileiras ou americanas são pessoas, em suas qualidades e inúmeros defeitos.

7444d2a5dea434c0f1ad1ff8b2ab55ddÉ difícil falar em heróis ou vilões, porque o mundo mostrado em Narcos é mais complexo que isso. O que torna tudo ainda mais interessante, seja por seus vilões esperados, como seus heróis improváveis, como o policial violento lutando impiedosamente contra os traficantes, o agente da DEA fazendo seu trabalho, como pelo político que precisa colocar até seus amigos em risco ou selar o destino de pessoas inocentes por uma vitória maior. Nesse aspecto, eu acho que o César Gaviria  não deve ter ficado chateado com a série, nem vários policiais.

Enquanto assistia me lembrava de Perigo Real e Imediato do Tom Clancy, que depois virou um filme com Harrison Ford e não pude deixar de rir comigo mesmo ao perceber como o Clancy me soa profundamente ingênuo em sua descrição da Guerra às Drogas e da América do Sul. Em Narcos há algo muito mais complexo, detalhado e até cínico em relação ao tráfico e a realidade da vida ao sul do equador. Apesar das críticas colombianas à série achei que o país e seus cidadãos foram mostrados sob uma boa luz. O país não é uma donzela em perigo e os Colombianos não são idiotas esperando para serem salvos. São sujeitos de sua própria história, no melhor e no pior. Eles desejam, sangram e lutam pelo que consideram certo. Há colombianos corajosos, covardes, inteligentes ou estúpidos, humanos. Essa é uma história sobre a Colômbia, portanto nada mais justo que eles sejam mais do que figurantes, sejam os honestos ou os terríveis.

Um traficante humano, até demais

narcos-season-2Apesar de entender as críticas locais ao espanhol do Wagner Moura eu considero a atuação dele fantástica.  Creio que um dos efeitos mais estranhos do carisma do ator é que ele faz você gostar do Pablo Escobar. Algo particularmente perturbador quando você vai entendendo que aquele cara que você considerou legal à primeira vista provocou a morte de milhares de pessoas, muitas vezes por capricho. E nem existe o consolo de se pensar que fizeram por mercer. Muitas delas eram gente simples ou mesmo inocentes que cometeram o erro cruzarem seu caminho ou serem eventualmente úteis e descartáveis. E tudo isso sem deixar de ser um sujeito que valoriza a família. Ele é descrito como um ser humano, em qualidades e defeitos. Ele não é um louco, mas um sujeito que toma decisões, muitas delas terríveis. Consigo imaginar alguns chefes e gestores no lugar dele, do tipo que também pegam os filhos na escola, compram presente para a esposa e etc. depois de destroçar e passar por cima de um monte de gente feito um trator durante o expediente. E isso que torna Escobar ainda mais assustador em sua humanidade.

Uma ironia é que a personagem Escobar tornou-se tão forte que muita gente passou a acreditar que a série é sobre ele. Quando na verdade é sobre o narcotráfico. Assim, outro mito fica para trás: aquela idéia de que se você derrotar o vilão o mal acaba e a batalha será vencida. Acredito que o fim de Escobar nem sequer alterou os preços da cocaína no mercado americano e o seu vazio foi rapidamente preenchido por outros traficantes. Um exemplo real foi a destruição da mega refinaria de Tranquilândia, cuja destruição em 1984 pouco afetou o tráfico. Para a frustração do DEA e do governo americano. Que anos depois da morte de Escobar ou mesmo com os fim das FARC, continua seguindo firme e forte, enviando toneladas de drogas todos os anos.

E na escola?

Como não podia deixar de ser vejamos se existe algum potencial educativo. Séries baseadas em fatos reais são um terreno particularmente movediço para o ensino. Porque elas não foram planejadas para serem uma descrição histórica fiel, mas apenas conscientes o suficiente para atrair a atenção da audiência.

Por outro lado o fato de serem convincentes aumenta em muito a chance de que sejam consideradas como verdade, mesmo que de forma inconsciente. Digamos que elas acabem ficando com uma força retórica muito forte. Tanto que o filho de Escobar listou uns 28 erros só na segunda temporada e entendo perfeitamente a discordância de algumas pessoas que viveram aquele período. O que não é um problema para a produção do Netflix, já que estão fazendo uma versão assumidamente romanceada da história. Como dito no início: os fatos reais foram romanceados para fins dramáticos. Assim,eu recomendaria para nível superior, no máximo final do nível médio e considero que seu uso seria, no máximo, paradidático.

Exercícios escolares

A série poderia ser empregada para despertar o interesse sobre o período para estudos sobre ciência política, sociologia ou história da América do Sul. Um bom exercício seria justamente esse que o filho do Escobar fez: ver a série e enumerar onde ela está certa e onde não está.

Sobre a pessoa do megatraficante, que chegou a ser o sétimo homem mais rico do mundo. Ele me parece o caso de um gênio tático a quem faltava a visão estratégia. Brincando um pouco de história alternativa. Como teria sido a Colômbia se Pablo Escobar tivesse se tornado um estadista?

Outro ponto seria analisar as políticas relacionadas ao narcóticos. No ocidente se questiona cada vez mais a eficácia da chamada guerra às drogas, depois de décadas de leis duras e presídios lotados, com vários países fazendo experiências de legalização ou, pelo menos, de controle de danos em relação ao tráfico. Enquanto na Ásia e no Oriente Médio alguns países, como Indonésia e Filipinas, tem posturas particularmente duras sobre o assunto, países. Incluindo a aplicação da pena de morte para traficantes. Observar as vantagens e problemas de cada abordagem pode ser um ótimo tópico para discussão.

 

 

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