Recebi essa pelo twitter do Mattar.

A idéia é bem legal, um jogo educativo descrevendo o processo de produção do McDonald´s, o que bate com a idéia do Ian Bogost que comentei tempos atrás, usar um jogo para descrever um sistema.

Pelo que entendi a idéia é mostrar como o processo de produção da empresa é intrinsecamente destrutivo. Ao colocar o aspecto econômico acima de tudo a empresa produz uma série de problemas ambientais e sociais (as tais das externalidades que os economistas comentam) como a destruição de florestas, desemprego e riscos à saúde pública. O jogo é muito bem feito, com imagens agradáveis, uma interface de fácil interação e o entendimento do jogo é muito mais rápido que aparenta. Em termos de execução a equipe de design merece nota 10.

Porém em termos educacionais acho que faltou fazer o dever de casa, por um lado o jogo martela sobre os danos que o modo de produção do Macdonald´s produz e a irresponsabilidade da empresa nesse aspecto. Porém do ponto de vista do jogador o que fica patente é a necessidade de usar artimanhas criminosas como forma de manter os lucros, como subornar prefeitos, destruir o meio ambiente, desalojar comunidades etc. Caso contrário o jogador vai perder sempre e aí temos um belo dum nó.  Por um lado está o conteúdo que os projetistas pretendem ensinar exposto segundo o padrão tradicional de ensino enquanto do outro a idéia de construção de conhecimento e o aprendizado pela experiência dizem exatamente o oposto do que os projetistas supostamente desejam ensinar. O discurso simplesmente não bate com a experiência, e a meu ver a  experiência é o ponto fundamental do potencial educacional de jogo.  Se a idéia é criticar o MacDonald´s acho que o fizeram de forma perigosa, esvaziando o próprio discurso. Eles conseguiram fazer exatamente o contrário do Ayti, por exemplo e em termos de educação flertaram incomodamente com a doutrinação, foi algo como “faça o que eu digo, ainda que a experiência diga o contrário”.

Em suma é um  design ótimo, em termos de webdesign e design instrucional,  que eu achei perigoso em termos de projeto pedagógico. O que serve para mostrar que jogos educativos, e o uso de tecnologia em educação deve ser sempre um projeto transversal, equilibrando demandas e objetivos de disciplinas variadas.

Essa eu li no Fullerton (2008) , um relato de Ian Bogost da Persuasive Games comentando como os jogos podem expressar idéias e, claro, também podem ser usados para educação.

Segundo Bogost, jogos são bons para o representar o comportamento de sistemas.A maioria dos jogos que conhecemos são baseados em sistemas do mundo real.  Assim como um computador executa as ordem de um programa, um jogo nada mais é do que uma simulação de regras e procedimentos (codificadas em uma linguagem de programação)  que fazem o computador simular o comportamento de um sistema real. Por exemplo, um jogo como simcity é um modelo da dinâmica urbana que simula o comportamento social, da economia, criminalidade etc. Enquanto um jogo que simula uma partida de futebol é um modelo de um jogo real, onde o jogador fazendo o papel de técnico opera procedimentos estratégicos usados pelos técnicos para preparar jogadas e o programa procede de acordo com o input do jogador aplicado,  com o programa reagindo de acordo com as regras definidas pelo designer ou o programador.

Portanto um jogo é um modelo de um sistema com o qual o jogador deve interagir, pois o programa requer o input de jogador para o sistema funcionar. Quando o jogador “joga” ele tem uma idéia sobre o sistema real que o jogo está simulando, porém para conseguir avançar dentro do jogo ele deve entender o sistema nos moldes propostos pelo designer ao montar seu modelo. E é nessa dissonância de conhecimento entre o projetista e o jogador que reside a oportunidade de sugerir idéias e ensinar. Jogos podem ser usados simplesmente para sugerir ou persuadir para um determinado ponto de vista, vai depender da credibilidade e grau de aproximação entre o jogo e o sistema real em que este está baseado. O jogo Ayiti é um bom exemplo, a idéia do jogo é mostrar como a vida no Haiti pode ser difícil, mas em vez de tratar aprendiz de forma passiva abre espaço para que o jogador aprenda através de sua experiência dentro do jogo.

O que acontece no Irã é um bom exemplo de como a tecnologia pode ser uma ferramenta para a liberdade de um povo. Ditadores de plantão devem estar de cabelo em pé com a dificuldade em cercear protestos que os pobres governantes iranianos estão tendo.

Esse vídeo inclusive é uma boa explicação de como as coisas chegaram onde estão por lá.

IRAN: A Nation Of Bloggers from ayrakus on Vimeo.

Existe algo de relacionamento dentro de um projeto, pois sua velocidade de desenvolvimento está diretamente ligada ao grau de envolvimento de seus participantes. Por mais convincente e sedutora que seja uma proposta ele vai depender da práxis, do quanto eu realmente estive disposto a mergulhar no projeto. E por mais que uma boa metodologia, planejamento, até mesmo o erro ou percalços, são elementos essenciais ao desenvolvimento de boas idéias.

Assim como um relacionamento um projeto não é o seu final, mas o decorrer de um processo.

Porém, assim como num relacionamento, adoramos nos apaixonar. Mas temos problemas em mantê-los funcionando. Meus projetos começam com idéias belíssimas,  como um primeiro encontro, que ao mesmo tempo me assustam desenvolver. É o medo de amar, de desmistificar a idéia maravilhosa. Porém é não superá-lo significa matar a oportunidade de desenvolver a idéia e torná-la ainda mais bela.

Trazer um projeto para o mundo real, com seus erros, limitações e acertos também passa pela superação do medo de amar.

O curso de desenho industrial não tem um pingo de filosofia e confesso que nunca senti muita falta até começar meus planos para a grande guinada na minha carreira.  Porém ao ler este simpático artigo do Dyke (.pdf) vi como uma pós pode ir fundo. Por um lado achei fantástico justamente pela variedade,  ele trabalha de forma transversal levantando aspectos sociológicos e filosóficos, como também pela profundidade: conceitos como experiência e aprendizado são questionados e levantados desde Kant e Hume, que levantaram raízes do empirismo e construtivismo que eu acho tão interessante.  O que leva a um encaixe bem embasado do “reflexive learning” frente a uma sociedade também reflexiva. Por outro lado eu também vi meus limites em lidar com a tonelada de conceitos novos e os dois quilômetros de autores aos quais o Dyke fazia referência em seu artigo.  Já era um texto denso, em inglês então ficou mais denso ainda. Minha solução então foi procurar as referências que ele colocou no texto, pelo menos as mais populares, como o Crítica da Razão Pura de Kant.

A resposta à minha solução foi uma pergunta: Pra quê?? Se o texto do Dyke estava pesado Kant era quase um buraco negro sugador de entendimento e auto-estima intelectual, o prefácio já foi dolorido e as páginas iniciais beiravam o masoquismo.  Nessa empreitada eu fui salvo pela SenhoritaK que já escolada por um mestrado me recomendou primeiro começar pelas leituras comentadas para depois voltar aos textos puros, aí fica muito melhor para se tirar as próprias conclusões. Nada como aplicar um pouco de construtivismo à própria vida. O outro aviso que ela me deu é que há tanta variedade de pensadores, enfoques e análises que termina-se por escolher aqueles que se adequam mais ao que desejamos fazer e nos especializamos.

Eu ainda acho que o Dyke mandou o texto para ver se eu aguento o tranco, se foi essa a intenção devo admitir que ele foi esperto. Foi um belo dum tranco. :-)

Li essa no uol. É um artigo do Gilberto Dimenstein que comenta sobre uma mudança que também vejo observando mas que parece passar desapercebida pelo mundo imediatista que vivemos.

Que momento raro fazer dois posts num dia.

Encontrar tutoriais sobre ferramentas, programas de design como corel, photoshop et caterva é facílimo. Agora tente encontrar algo que preste sobre comunicação ou programação visual e a web torna-se vaga, monotônica e dissimulada.

Uma rara exceção à regra são estes posts do Luli Radfaher tanto por sua concisão técnica quanto por sua clareza para leigos. Para quem ouve muito falar em diagramação, simetria, e como organizar visualmente mas nunca teve uma explicação decente este é um ótimo começo.

Esse pessoal não tem régua? + Quem não sabe diagramar centraliza + Busca por simetria

Star-Trek-Trailer-Image-28

Vi star trek,  e apesar de divertido achei o mais “star wars” dos filmes da série  é o tipo de comentário que nerds e cinéfilos vão entender. E um momento que eu particularmente gostei é um diálogo entre Spock e o futuro Capt. Kirk acerca de de um exercício para comandantes.  O qual era uma simulação de combate particularmente insolúvel e Kirk  alegava que era impossível vencê-la sem alterar as configurações da missão. A resposta de Spock foi de que o erro de Kirk era achar que deveria vencer, objetivo do exercício não era vencer mas sim avaliar as reações de um candidato a comandantes frente à derrota certa.Pelo que entendi a idéia era fazer com que o aluno enfrentasse a situação em ambiente simulado e aprendesse a lidar com ela, além de avaliar se a pessoa tinha o perfil desejado para a função, mesmo em situações extremas.

Eu gostei porque é um dos raros casos de design instrucional no cinema que faz sentido.

Essa eu li no UOL notícias:

Sam Calavitta, ou  “Mister Cal” não parece ter nada de musa inspiradora. Quarentão, de cabelos  em estilo militar, cara de boxeador (e ex-lutador mesmo) e professor de uma matéria que sempre foi a pedra no meu sapado, a matemática. Ainda assim esse senhor é um professor premiado nos estados unidos, tanto por produzir turmas de elite com ótimos resultados como também por seu trabalho com alunos problemáticos: como criminosos, prostitutas e suicidas.

Usando técnicas ousadas comparadas com o ensino tradicional “Mister Cal” parece ter criado combinações  matadoras.  Seja usando jogos, brincadeiras ou frases de motivação pronunciadas de um modo quase militar ele consegue motivar os alunos a aprender e manter sua atenção, mantendo a inovação quase como uma constante em suas aulas. Muitas vezes os alunos simplesmente não sabem o que os esperam. Dentre as técnicas dele, uma que também não posso deixar de citar, simplesmente se dispor a ouvir e ter uma imensa paciência considerando seus alunos como indivíduos e não como um coletivo como geralmente se faz. Não julgar parece ser um ponto essencial. Mas não se iludam o sujeito não tem a menor pinta de ser um cara indulgente, segundo o próprio “Os jovens devem aprender que a vida é dura”.

Aí eu fico pensando no que ainda tenho de melhorar como professor, ainda que seja de me maravilhar com a inteligência alheia, com certeza eu julgo. Tenho dificuldades de manter o aluno interessado e entusiasmo é algo que pode se quebrar fácil. O que me motiva a procurar formas inovadoras de ensinar

Enfim, a história do sujeito dava um filme, é algo como um Patch Adams com algo de wolverine :-) . Algo bem adequado os nossos tempos barra-pesada não?

Sempre acreditei no potencial que  o cinema e TV tem para o ensino de história, principalmente em trabalhos feitos com uma boa assessoria. Um destes exemplos foi o curto seriado Roma um produção conjunta entre a BBC e o HBO. A meu ver a produção, ainda que caríssima, teve o mérito de juntar a qualidade de roteiros britânica e o apuro de produção americano (não poderia deixar de ser falar em Roma sem a participação dos italianos da RAI, claro).

Do ponto de vista de ensino, achei a série muito boa também. Nem tanto pela descrição do cenário macro (ou em termos literário o épico) em que são mostrados os grandes personagens e eventos: como a tomada da Gália, o assassinato de César, ou relacionamento entre Cleópatra e Marco Antônio. Os quais acabam sofrendo alguma adaptação para o público e o formato da TV.  Na verdade acho que o grande mérito é o aspecto antropológico. E como Herodes tem uma curta participação na série, imagino que ainda faltavam uns bons anos para uma certa estrela passar sobre Belém, a série oferece uma bela idéia do que era a cultura romana pré-cristianismo. Não se furtando em mostrar  que apesar de sua sofisticação (muito da noção de direito e estado que temos hoje foi herdada de roma) os romanos podiam ser incrivelmente cruéis para nossos padrões e isso sem cair em julgamentos de valor.  Também é interessante ver como vários aspectos “pagãos” acabaram sendo englobados pela igreja católica e a própria sociedade ocidental, é interessante perceber de onde viemos.

Portanto a série é uma ótima forma de demonstrar uma cultura, história e antropologia de uma forma dinâmica. Com direito a vários níveis de análise e tramas intrincadas: como a guerra entre duas mulheres, Attia e Servília e os seus efeitos na política romana; ou a amizade entre Lúcio Voreno e Tito Pullo (na verdade foram centuriões que lutaram com César na Gália) servem para estimular diversas reflexões.

Só não recomendo ver com as crianças pois os produtores foram bem liberais à forma como os romanos encaravam questões como violência, sexo, nudez e uma boa dose de politicagem (ótimo para certos impressionados com a política brasileira atual).

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